Desenhos animados e suas malícias
Dezembro 29, 2009
Não é nada raro encontrar desenhos animados ou produções para crianças que trazem consigo um quê de malícia. Há mesmo uma sexualização que não me parece das mais adequadas para crianças (penso no público de crianças ainda não completamete alfabetizadas, até seus, digamos 7 anos).
Há uns anos atrás, os Simpsons apresentaram uma sátira a esse tipo de produção especificamente brasileira. O episódio famoso, que se passa no Rio de Janeiro mostra um Bart Simpson vidrado num programa da Xuxa:
Eu achei a crítica legal, era um americano vendo televisão no Brasil e se assustando com a sexualidade explícita do antigo “Xou” da Xuxa e suas paquitas, que eram um similar das chacretes para crianças.
Mas a crítica inversa é bem pertinente: os longa metragens animados americanos apresentam também um tipo de sexualização que não parece das mais apropriadas às pequenas crianças. Mas talvez sejam menos explícitos que o Xou da Xuxa (ou não, sei lá). As imagens que me vem a cabeça são, para quem nunca notou, da Sininho:
É ou não é uma coisa assim, meio sexy demais? E se você pensar na história do Peter Pan… três moças (a Sininho, a Wendy e a índia da ilha do Nunca) disputando o galã juvenil… Tudo bem, tem um livro infantil lá em casa onde os mocinhos matam a bruxa e a decapitam, e ainda fazem uma sopa com a cabeça da coitada. Há algo de mitológico nessas histórias. Nos mitos, bem, as coisas não seguem um código moral que possamos reconhecer de cara. E certamente não é o nosso.
Mas ainda assim: era mesmo preciso fazer personagens como a Sininho (e inúmeras outras) tão gostosas? Tão desejáveis? Há algo a se pensar aí. Fico lembrando que é muito fácil encontrar hqs piratas cujo o tema é o sexo explícito entre personagens de desenhos animados. Estão online (se você quer encontrar alguma, olhe aqui). Não sei se é porque os desenhos carregam alguma mensagem erótica e depois, adultos se interessam pelo sexo dos personagens, ou se é algo intrínseco à narrativa desse tipo de história que haja alguma malícia (o que faria dos desenhos algo naturalmente sexualizável).
Sei que aqui nessas férias chuvosas do sul de Minas, vendo 655 dvds com os meninos, fiquei incomodado com um deles e não sabia bem porque. Depois me dei conta que foi um espanto parecido com o dos produtores do Simpsons: o desenho que eu via me parecia sexualizado demais:
Várias imagens com essas roupas mega-colantes:
Muitas posições estranhas!
e outras e mais outras e ainda muitas.
O desenho em questão é o “monstros e alienígenas”, da DreamWorks Animation, mas poderia ser quase qualquer um dos desenhos produzidos nos EUA (desde a Branca de Neve até este, recente). Sinto algo estranho com essas imagens, e você?
O ano novo e a vaca autista
Dezembro 28, 2009
O chiuhahua está de férias, mas algumas coisas merecem uma menção, mesmo no perído sagrado de overdose de pernil de porco (costuma ser assim por aqui).
Estava zapeando os canais e me deparei, do nada, com a seguinte legenda, enquanto uma mulher falava alguma coisa:
“Preço da Vaca segue trajetória altista em Assunção“.
ahnn, como é? A vaca paraguaia segue um caminho autista? O preço da vaca é estipulado por autistas em Assunção? Há uma trajetória autista em Assunção e a vaca e seu preço a seguem? Há outros seguidores?
Ok, era um canal desses rurais, discutindo a cotação do gado na américa do sul. Legal até, em tempos de conexões sul-sul. Mas essa legenda é psicodélica demais, o cara estava em overdose de pernil, ou algo assim.
Final de ano dá nisso!! E é uma oportunidade de ouro para garimpar legendas psicodélicas.
O chihuahua, de férias, deseja a você um ano novo com legendas psicodélicas e outros tesouros por aí, porque você sabe, há tesouros por todas as partes.
Pequenas memórias e antropologia artística
Dezembro 18, 2009
A memória é algo em debate, sabe-se desde sempre… Versões são contrapostas, vozes se calam, são silenciadas. E ninguém sabe direito o que vai ser lembrado, muito menos como. A desistência do Aécio em concorrer à presidência será vista como, num futuro distante? Como uma “jogada de gênio”, como diz o Nassif em seu blog (humm, que estranho), ou como uma avaliação realista da situação, como afirmaram os políticos da facção serrista da oposição? Tudo depende: depende de quem ganhar as eleições, depende do futuro político de cada um dos políticos (mas o fato da carreira do Serra estar terminando, enquanto a carreira – política – do Aécio ainda ter mais longevidade pode influir na leitura futura. Se o Aécio vir a ser presidente num futuro 2014 ou 2018, tudo será lido por uma ótica diferente).
Se isso é verdade para grandes questões, também para pequenas coisas a regra opera. Vai aqui um mini-exemplo. Final de semana passado foi a formatura (da pré-escola!) do meu filho Cassiel. Cerimônia com toda a pompa que condiz com o primeiro ritual de passagem do moleque. Como em todas as cerimônias, havia um ponto alto, que não foi exatamente a entrega do diploma, mas a exibição de um pequeno vídeo de fotos, como lembrança da turma.
Engraçado que o climax da cerimônia seja um discurso sobre a memória de um grupo de crianças de 6 anos. Não era para os pequenos, claro, era para os pais: uma narrativa da paternidade e da maternidade. As fotos eram de cada um da turma, em três momentos (bebê, por volta dos 4 anos, e atual), junto aos pais em alguma delas. E também muitas fotos da turma, em momentos diferentes.
A “disputa” começou na produção do vídeo: a professora da turma fez um, a dona da escola (e mãe de uma formanda) fez outro e o “coletivo” dos pais fez outro. O que foi mostrado na cerimônia foi o da dona, a professora distribuiu o seu entre os pais dos alunos na mesma semana, e os pais distribuíram o seu durante o evento.
A pergunta que me fiz é “porque três videos”? Porque esse excesso de memória? Porque tantas narrativas? Não sei bem, mas acho que todos quisemos expor formas diferentes de contar o mesmo processo. O encadeamento de fotos em seguida, contando uma mini-epopéia, parece ser o meio propício para contar essas memórias. Há diferenças nos encadeamentos, claro. Cada um conta de um jeito. Mas todos da mesma forma.
Eu acabei participando da brincadeira, e fui tirar fotos dos pimpolhos na escola, para fazer um dos vídeos. Você sabe, é o meu padrão básico de intervenção artistica fazer esses videozinhos, que são narrativas sobre um tema. O meu video oficial teve que inserir as fotos das crianças com idades diferentes, mas o que gostei mesmo de fazer é esse abaixo, que segue a idéia de uma intervenção situada no tempo (fotos tiradas num intervalo de 30 minutos), mostrando um clipe do cotidiano dos meninos, misturado com as pertubações que minha presença gerou (foi uma bagunça). É algo como uma “sensação” etnográfica.
Seria legal expor os três videos “oficiais”, mas eles não são meus, são dos pais e de suas memórias. Segue aí a parte que me toca como uma outra pequena ação do que chamo de antropologia artística.
Placas estranhas
Dezembro 16, 2009
Eu tenho um problemas com as placas de sinalização em geral. Elas me irritam, me desagrada o tom imperativo. Não que sejam todas imperativas, mas uma boa parte é. Acho que a birra vem de quando eu pegava meu ônibus Gardênia, quase todo final de semana, entre Campinas e Itajubá.
Eram cinco horas de viagem (ninguém merece aquele ônibus). E eu sempre sentava no corredor, pois havia aquela chance de ir sozinho nos bancos. Claro que nunca funcionava, mas enfim, a gente se habitua com as manias. No corredor, a única coisa que chamava minha atenção era aquela plaquinha prateada lá na frente, que dizia: “CUIDADO DEGRAUS”. Eu tive milhares de horas com essas placas, pude conversar, trocar idéias e, gradualmente, me enfurecer com elas.
No fim, permanecia a dúvida: era para os degraus terem cuidado? Não deveria haver uma vírgula: “Cuidado, degraus”? Eu cheguei a conclusão, nessa conversa de anos, que a placa era uma aviso aos degraus (coitados, todo mundo vai pisando neles sem cerimônia). Claro, era tudo fruto de uma certa economia linguística que autoriza qualquer coisa nessas placas. Acho que quem pensa nas placas pensa em ordens sem pontuação e tem certeza que não há possibilidade de outras interpretações.
Mas o diabo é que elas existem. Toda essa história dos degraus fica sempre latente na minha cabeça e ontem no shopping outras placas despertaram a raiva cozinhada em fogo brando durante os anos de Gardênia. “CUIDADO PEDESTRES”. Só que nessa placa a confusão dos sentidos é ainda mais perigosa: é para o motorista ter cuidado com os pedestres ou para os pedestres terem cuidado com os motoristas? No segundo caso, estou autorizado a passar feito um louco pelo estacionamento, afinal os pedestres estão avisados para serem cuidadosos.
Esse duplo sentido é fruto desse caráter imperativo? E há um duplo sentido imperativo, o da própria placa, por um lado e o do cara que pensou a frase: ele só pode pensar que haverá uma interpretação única, sei lá. Mas a língua é um negócio ambíguo pra caramba.
Depois eu vi uma placa mais telúrica, e achei engraçado: “SENTIDO ÚNICO”. Então, qual sentido? A visão, audição, ou o tato? Ou o cara quer dizer por decreto que eu devo deduzir apenas um sentido do que ele está falando? Tipo, isso aqui não é para ambiguidades, o sentido é único. Que placa difícil essa!!
O bacalhau de Lévi-Strauss com legenda
Dezembro 12, 2009
Escrevi um post sobre a tradução do Via das Máscaras, do Lévi-Strauss, e fiz uma brincadeira com um detalhe da mesma.
Depois recebi um comentário tão legal que resolvi colocá-lo nesse post, como nota explicativa. (obrigado, Cássio)
“Bem, talvez o tradutor tenha querido salientar a diferença de significados entre “cod” (em Red Cod) e “bacalhau”.
Em inglês, “cod” é o nome vulgar de diversas espécies de peixes do gênero “Gadus”, que vivem no Atlântico Norte, como o atlantic cod. Em épocas que não existia refrigeração em barcos, esse peixe só podia ser comido fresco perto do lugar onde era pescado, como Inglaterra e Noruega.
Os portugueses pescavam o cod e secavam-o no sal para conservá-lo e transportá-lo a Portugal. O nome de peixe seco salgado em português é “bacalhau”. O bacalhau pode ser feito com diversas espécies, pertencentes ao gênero “Gadus” ou não. Bacalhau, na realidade, não é sinônimo de “cod”, assim como “charque” não é sinônimo de “agulha”.
A confusão começa porque, quando se traduz “cod” em português, a palavra usada é “bacalhau”, ja que essa era a maneira que o codfish chegava em Portugal no passado. Apesar de todo peixe salgado ser bacalhau, nem todo bacalhau é codfish. Para piorar, existem alguns peixes que não são do gênero “Gadus” e que também são conhecidos como “cod”. Esse parece ser o caso do Red Cod, peixe em questão no trecho de Lévi-Strauss.
Assim, para o portuga que lê Lévi-Strauss traduzido e vê “red cod” no nome do peixe e saca um pouco de inglês, pode-se fazer necessária uma nota ao pé da página. Também achei deselegante enxertar no texto original uma explicação. Parece copista da Idade Média que escrevia no meio de sua iluminura como ele estava cansado de desenhar.
Cássio”
O Bacalhau de Lévi-Strauss
Dezembro 11, 2009
Tradução é um negócio complicado: difícil de fazer, fácil de errar. Um trabalho para estóicos.
Mas também é fruto de boas piadas, e eu não poderia deixar essa passar: Estava lendo o “Via das Máscaras” do Lévi-Strauss (ok, estou meio noiado com o cara), cuja edição em Português é da Editora Presença, de Lisboa. Resolvi cotejar a tradução com o original, já que comprei a bíblia da Pléiade, com a edição revista e comentada de alguns livros do Lévi-Strauss (escolhidos e revistos pelo herói). Até que é legal o trabalho do tradutor Manuel Ruas, mas sempre se pode questionar algumas escolhas. Mas uma passagem é realmente cômica e, digamos, essencialmente portuguesa:
Veja o original em francês:
Communément appelés en anglais Red Cod ou Red Snapper, ces poisons de roche et d’eau profunde (…)(Lévi-Strauss, versão original [Pléiade, Gallimard], 2008, pg. 907)
Minha tradução tosca:
“Chamados comumente em inglês de Red Cod ou Red Snapper, esses peixes de rocha e água profunda (…)”
Agora veja a tradução do português:
“Comummente chamados em inglês Red Cod ou red Snapper, esses peixes não são bacalhaus mas peixes das rochas e das águas profundas (…)” (Lévi-Strauss, Via das Máscaras, 1981, editorial presença, Lisboa, tradução de Manuel Ruas, pág 45.”
Quá, quá, quá, quá!!!! Os caras têm que colocar o bacalhau em tudo! Quá, quá, quá. quá!!!
Isso certamente diz muito sobre o valor do bacalhau em Portugal. Tipo, a primeira imagem que vem à cabeça quando se fala em peixe é a do bacalhau. Aí o cara tem que dizer que o tal peixe não é um bacalhau, senão todos os mitos salish e kwakiutl vão virar um fado português.
Sorte a nossa que Bia Perrone-Moisés traduz o Lévi-Strauss nas edições brasileiras. A pergunta que me ficou é: qual será o nosso similar ao bacalhau?
Brinquedos para o nosso tempo
Dezembro 8, 2009
Vemos sempre brinquedos das mais variadas espécies. Uma parte consdiderável deles tem um apelo “violento”: brinquedos de guerra, de heróis de combate, armas, carros de guerra etc. Nada disso é muito supreendente, diria que esses brinquedos tematizam temas universais e, como nos mitos, discursam, com recurso à violência, sem causar muito espanto. Os mitos têm passagens muito violentas, mas não damos muita importância, assim como não ligamos muito quando as crianças brincam de se matar. Lévi-Strauss disse, na entrevista a Didier Eribon, que é como se o pensamento científico tivesse sufocado o pensamento mítico nas sociedades ocidentais. Talvez seja verdade, ou talvez não. Acho que no que se refere ao mundo das crianças, a sociedade ocidental “relaxou” e o pensamento mítico continua operando em paz. De outra forma, seria difícil explicar porque meu filho pode representar um príncipe que assassina dragões a sangue frio numa peça escolar sem me causar estranhamentos (ou porque um caçador pode abrir a barriga do lobo mau e retirar uma vovó que havia sido devorada viva).

Mas nem todos os brinquedos são, digamos míticos. Alguns seriam, talvez, gramscianos: artefatos de construção de um consenso ideológico mesmo. Na minha infância era, definitivamente, o papel do banco imobiliário: aprendíamos a naturalizar a propriedade, a riqueza e uma certa ordem desejada de “ambiente de negócios”. O banco imobiliário é um jogo de naturalização do capital.


Sobre a sensibilidade paterna
Dezembro 8, 2009
Vinha dirigindo, rumo à São Carlos, ouvindo o Lou Reed que tinha “resgatado” no dia anterior. Era o “Berlin”. Vinha distraído e pensando em milhares de coisas, a música como pano de fundo, apenas. De repente, escuto um choro de criança: daqueles magoados e desesperados. Que susto, e o choro continuava, junto com a música (era parte da música, mas levei uns segundos para perceber). A canção era “the kids”.
Cara, fiquei absolutamente passado. Aquele choro me incomoda até agora. E eu não prestava atenção à letra (clique aqui para ler). Se tivesse, teria ficado ainda mais impressionado – é daquelas letras do Lou Reed, submundo demais. Mas o choro ficou ecoando na minha cabeça.

Como um choque inesperado, aquilo ativou minha experiência paterna de um jeito psicanalítico, acho. Como um movimento impensado de artes marciais (estava indo para a defesa sobre o Kendô, do meu aluno Gil), depois fiquei pensando como aquilo aconteceu.
A gente carrega as lembranças o tempo todo, mas às vezes um Lou Reed pode tirá-las na marra.

Uma regra para as falas dos presidentes
Dezembro 4, 2009
Você sabe, presidentes falam. Falam prá caramba, à exaustão. Quando eu fazia meu doutorado, uns anos atrás, fui ler algo dos discursos do Mário Soares (ex-presidente e primeiro-ministro português), prá entender algo daquela ideologia saudosista da lusofonia. Eram volumes, daqueles que ficam em pé sozinhos. Poucas coisas têm poder mais hipnótico. Deve ser melhor que lexotan.
É que presidentes falam. É da liturgia do cargo: comunicar, falar, encher nossos ouvidos e páginas de livros. Muitos historiadores, antropólogos, sociólogos, cientistas políticos devem teses e artigos a esse hábito de chefe Guayaki dos presidentes.
Eles falam, falam, falam e raramente se dá realmente atenção ao que se fala (com exceções diminutas em relação aos quilos de papel produzidos pelos discursos). Discursos protocolares, discursos para efemérides, discursos para comemorações variadas. Tanto é assim que quando se lembra de um presidente, é em geral falando algo (provavelmente a coisa mais relevante que ele falou nos anos de poder).
Mas aqui temos uma coisa incrível acontecendo: um presidente que fala e muita gente que realmente dá atenção ao que se fala. Cada frase, cada discurso, cada entrevista merece um destaque imediato, linhas e artigos, protestos, indignações. Quando o presidente Lula fala, o eco permanece por dias. Mas esse eco tem uma característica bem evidente, é sempre negativo. É preconceituoso, é envergonhado de um presidente que fala como um trabalhador qualquer. Que usa figuras de linguagem essencialmente populares, que fala como ele fala.
A mídia se embaraça e se contorce em cólicas a cada discurso do presidente, a cada evidência de sua origem social. Porque essa é a questão: a fala de Lula não esconde sua origem, a destaca. E isso, definitivamente, é intragável para os Marinho, Mesquita e quetais.
Num outro momento, escrevendo aquela mesma tese que citei acima, comecei a entender como o sotaque dos imigrantes brasileiros em Portugal era o que de fato os identificava. Era uma identificação linguística que a seguir transformava a percepção racial de quem ouvia sobre quem falava. O cara podia ter qualquer cor, mas se tivesse sotaque era classificado como mulato. Essa estranha situação me tornou alérgico à lusofonia (e a retórica apolítica da igualdade da língua) e me fez entender alguns mecanismos de discriminação disparados pela fala, como evidência incontornável de uma origem social.
O que eu sei é que a fala do presidente é uma afirmação de classe. E a mídia e a elite horrizada não se conforma. Querem que o presidente se cale, não para que não se diga mais nada, mas para que não se lembre sua origem de classe. Essa história de que pobre pode chegar a presidente é mesmo um veneno para nossos “formadores de opinião”. Então que o presidente se cale!
O paradoxal é que quem mais dá voz ao presidente é essa mídia, tentando ridicularizar a fala de Lula por todos os meios. Os milhares de artigos criticando a fala do presidente só reforçam aquilo que é o pânico desses grupos reacionários: sua origem de classe. E me pergunto: alguém acha que os livros do Mainardi, Kamel, Marcelo Tas (as provas mais cabais desse horror de classe) prejudicam a imagem do presidente?
Vamos inventar uma regra então: o prestígio de um presidente com as elites reacionárias é inversamente proporcional a atenção que se confere aos seus discursos.
E enquanto isso, Lula, que de bobo não tem nada, fala.
Tudo ao mesmo tempo agora e a tristeza da Globo News
Novembro 28, 2009
Um trilhão de coisas acontecendo este final de semana. Uma sucessão de notícias de deixar qualquer um meio atordoado:
1) Denúncia do mensalinho do Arruda no Distrito Federal
2) Denúncia (menos divulgada) de corrupção no Governo Estadual de São Paulo (empreiteiras). Operação Castelo de Areia da PF indicou relações estranhas entre Camargo Corrêa e políticos dos últimos governos estaduais paulistas.
3) Texto de César Benjamin na Folha, acusando Lula de ter tentado estuprar um colega de cela quando esteve preso em 1981.
As duas primeiras denúncias atingem diretamente o coração do DEM e o dos tucanos. Arruda, único governador do DEM, gravado a distribuir dinheiro de propina. Não parece bom, não é? A segundo atinge nomes como Walter Feldman, Aloysio Nunes, Gilberto Miranda. Há referências a doações ao “Palácio Band”, à CESP etc. Atinge, portanto, o centro do PSDB paulista.
A terceira ataca diretamente o presidente Lula, acusado, sem mais nem menos, de possível estuprador. O fato do delegado que era responsável por vigiar Lula na prisão negar, do próprio “quase estuprado” negar, do testemunho de todos os presentes na prisão e no tal almoço negarem, enfim, nada disso parece muito relevante para a Folha. Um jornal tem que estar no fundo do poço para dar azo a esse tipo de manifestação. O Estadão, por exemplo, colocou as coisas em perspectiva.
Acho que a Folha tomou a decisão do Obama, ao contrário. Como se sabe, esse mandou avisar à Fox que não a trataria como imprensa, mas como um partido de oposição (não seria preciso fingir). Parece que a Folha resolveu declarar que não trata o governo assunto jornalístico, mas como partido político de oposição.
E isso bem no momento em que aquelas denúncias derivadas da ação da PF atingem o coração da oposição. Parece orquestrado, e deve ser.
Ontem, assistindo o jornal das 10 na Globonews, o tom dos comentaristas era quase fúnebre, ao expor o mensalinho de Arruda. Uma tristeza indisfarçável.
Lembra-me, por contraste, a alegria dos mesmos comentaristas (especialmente o Merval) às vésperas da eleição de 2006, comentando o mensalão do Governo Lula. As denúncias são muito semelhantes, mas o tom, hummm, o tom agora é bem desiludido. Lembro-me bem do Merval comentando a vitória do Lula em 2006: “o problema é que as pessoas não souberam votar”. Acho que a tristeza atual é perceber a contradição. Não deve ser fácil.












