Lévi-Strauss e heróis

Ontem inaugurei o blog, logo depois recebi a notícia da morte de Levi-Strauss, que circulou um pouco antes entre os antropólogos (pela manhã) e à tarde pelos jornais brasileiros. ls

entre os amigos de departamento, um sentimento triste, mas a sensação de que, enfim, LS teve uma grande vida, reconhecimento e dignidade até o  fim.Eu fiquei bem triste, mesmo concordando com tudo isso. É que comecei minha vida acadêmica no começo dos anos 90, quando LS já era bem ancião (já tinha mais de 80 anos). De certa forma, esperávamos sempre por essa notícia, mas o cara foi sobrevivendo. Passou em vida por várias modas acadêmicas, se viu herói, depois bandido, até pós-si-mesmo virou (na leitura atual de EVC).  Eu era (e ainda sou) fã dos comics da Marvel e lia LS na universidade. Era inevitável, LS parecia um herói da Marvel… Não morria nunca, nosso próprio Wolverine intelectual, com várias encarnações sucessivas. E como o wolverine, sempre meio na contramão das modas.

Pois sua morte derrubou um pouco dos meus castelos, achava que ele ainda veria a crítica da leitura atual EVCiana, que faz dele um pré-pós-estruturalista.  Mas como humor não faz mal nesses momentos, se LS era meu Wolverine, quem, na sala da justiça, seria o EVC? Claro, a irmã dos super-gêmeos (Jayna), lembra dela?

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Era a própria encarnação do perspectivismo (uma xamã empírica, sei lá). Transformava-se em qualquer forma animal, mas acho que sempre se mantinha roxa. O irmão (Zan) é o próximo passo de um processo teórico: intercambiando entre formas variadas, desde que todas baseadas em água, gelo ou vapor (muito Bruno Latour, acho).

Eu, como chihuahua anão, fico sem um herói em carne e osso, mas as obras estão aí, ao alcance da mão. No meu popularesco conjunto de referências da indústria de massa, passo a sentir LS como um novo Sandman (do Neil Gaiman), povoando os sonhos de um ocidente hiper-mitológico, apesar de tudo. É que nossos mitos estão em outro lugar, e não mais nas gêneses do universo. Basta ligar o discovery kids.

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6 comentários em “Lévi-Strauss e heróis

  1. Não li Marvel, mas bacana seu comentário. A morte dele vai trazer força a alguns de nós para fugirmos dos modismos, uma força diferente daquela destes últimos, que de algum modo se impõem, talvez contrária, talvez a mesma q LS nos trazia em vida. Definitivamente, LS tinha super-poderes; algo me diz que iam além daqueles que ele buscou entre ou, para ceder a uma palavra da moda, “com” os ameríndios.

  2. meu “encontro” com LS foi por intermédio do curso Antropologia II, já no distante ano de 1985. Ali com a “xavante” Aracy Lopes pude me iniciar na arte da decodificação do mundo, aquilo para mim era, de fato, do outro mundo, já que na sociologia e na política naquele momento (de mundos desencantados e pactos de sociedade) o que interessava era construir algo junto com a teoria. LS já insinuava o grande perspectivismo, o balé visto pelo caleidoscópio das pequenas transformações, das mexidas aqui e acolá que revelam arranjos de arranjos de arranjos, e isso me perturbava. No meio do curso, aluninho de primeiro ano como dizemos, vi o próprio mito tropeçar naquela escada onde todos cotidianamente davam as suas topadas. O cara tava ali, nas leituras, nas aulas e ao vivo, parecia uma replicação do próprio mito. Hoje (4 de novembro) no Estadão aparece uma foto dele na famosa sala 105 das Ciências Sociais da USP. Eu apareço no canto direito junto com amigos que desapareceram nos arranjos dos arranjos dos arranjos da vida!

  3. Mais um comentário: temos (LH e eu), um amigo em comum que estava no banheiro na CS da USP, e ao seu lado estava LS em carne e osso urinando, no mesmo mictório de latão de aproximadamente 3 metros de largura. Sempre me perguntei por que os heróis nunca vão ao banheiro, por que não perdem tempo com isso? Essa então é uma nobre exceção, que durante 30 e poucos segundos deu prova de sua existência mundana…

  4. Cara, você vai achar que eu estou de sacanagem, mas quando eu vi que o LS tinha morrido, pensei em escrever que era uma pena que você não tinha blog para dizer algo sobre isso.

    Bem-vindo à blogosfera, rapaz.

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