Difusionismo difuso

Continuando a conversa anterior:  o difusionismo morreu como “escola”, movimento ou similar. Mas não como método, basicamente porque era historiográfico, tentando estabelecer conexões causais relacionadas à movimentação de gente. Sobreviveu longamente na antropologia americana, depois reintroduzido (como história) no Funcional-estruturalismo por Evans-Pritchard. Enfim, depois os estudos de “mudança social” (Manchester) incorporaram definitivamente a perspectiva.

Nos EUA, se tivessem prestado mais atenção ao Rivers, talvez a contenda Sahlins X Wolf (sistema mundial) tivesse sido lida de outra forma. Os dois falam de processos de difusão, só que os do Sahlins estão na ponta menos transformadora (o Rivers estabelecia três níveis; no primeiro deles a incorporação de hábitos de outros povos se dava apenas num nível superficial e não causava mudanças estruturais). Os do Wolf estão na outra ponta, a mais transformadora, quando o capitalismo vence as resistências na porrada. Claro que a própria noção de história ganhou outros níveis com o trabalho do Sahlins, mas no fundo falamos de como os povos reagem a outros povos.

E se o Levi-Strauss tivesse escrito as mitológicas no começo de século XX, seria visto, sem dúvida, como difusionista (ai, quanta pedrada eu vou levar). O nosso herói ousava dizer que o pensamento ameríndio era um só através das Américas.  Unidade do pensamento americano, quer coisa mais difusionista? Não é por menos que LS passa muito tempo dos seus livros localizando geograficamente as populações das quais os mitos são estudados.

E o EVC, com o pensamento amazônico? Acho que é algo semelhante… Claro, as intenções, motivos e enquadramentos são outros, mas resta algo dessa herança historiográfica dos difusionistas, mesmo entre os estruturalistas e sucessores.

Tivessem lido com mais atenção o Rivers, alguns sociólogos brasileiros (como o Ianni e Renato Ortiz) não teriam caído na conversa do Estado em vias de desaparecimento. Além de ser ideologia neoliberal, era um argumento profundamente anti-histórico. O capitalismo não prescinde do Estado, precisa dele. A ironia é ver o capitalismo sendo salvo por um estado muito centralizado e forte (a China).

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