Leo Frobenius: questões de memória e um escroque

Já ouviu falar em Leo Frobenius? Se você não é cientista social, geógrafo, arqueólogo, aposto que não. E se é, mas tem menos de 40 anos, também aposto que não.

Uns anos atrás quando comecei a dar um curso de introdução à antropologia para alunos de graduação, me deparei com a ementa, que entre os tópicos havia um que me instigou: evolucionismo e difusionismo. Evolucionismo, ok. Todo mundo sabe alguma coisa. Mas eu percebi que não sabia P* nenhuma de difusionismo. Nem tinha visto nada disso nos meus cursos de formação: aprendi apenas que era irrelevante.  Minhas professoras (ótimas) nos primeiros cursos eram muito novas e nem tocaram no assunto.

Então, fui lá descobrir o que era exatamente esta P*. Basicamente, encontrei quase nada recente sobre o tema. Ou nada. Fui correr os manuais de antropologia que se usavam nos anos 60, 70. Claro, estava lá no velho Ralph Linton. Depois descobri o filão e achei muitos textos (o melhor é do Marvin Harris). Daí que quem estudou nos anos 60/70 sabe que o Frobenius era um alemão, bastante influente na teoria difusionista alemã (que o Boas chamava de “escola geográfica”, ou algo assim). O cara desenvolveu lá uns modelos de “círculos culturais”, baseado em seu conhecimento da África. Dá pra saber algo com a wikipedia . Mas o fato é que a história é mesmo uma coisa dos vencedores (e voltarei a isso).

Todo o difusionismo foi um “movimento” importante, com inúmeras direções e que, em geral era muito crítico dos evolucionistas. Teve seu momento mais refinado em Rivers, e também no próprio Boas. Mas o fato é que os caras saíram da história da antropologia como difusionistas (O Boas é o “pai” da antropologia americana, e o Rivers ficou como criador do método de grafia do parentesco). Nos começo dos anos 50, quando muitos dos manuais importantes foram feitos, ainda não dava para ignorar o difusionismo, ele aparece em vários capítulos. Mas com o avanço do século XX, e o império funcional-estruturalista gerando gerações de descendentes, bem, a coisa saiu de moda mesmo.

Claro, Malinowski e Radcliffe-Brown mataram mesmo os “pais”, e a galera difusionista (Rivers, Seligman) foi junto com a água da bacia (que era feita de evolucionismo e história). Hoje a gente vê a história pelas lentes desse império. Num outro post (se tiver pique) falo sobre isso de um ponto de vista da antropologia brasileira (dos nossos esquecidos).

Mas voltando à vaca fria, hoje me deparei com um artigo do Robert Fisk (não se deve perder nenhum artigo desse cara) sobre quem? Leo Frobenius!!! (Veja aqui). O cara foi um grande escroque, tipo Indiana Jones do mal (aqueles caras que sempre pegavam as estátuas das mãos do Indiana Jones). Foi uma tentativa de Lawrence da Arábia, como agente alemão. Tinha como missão encorajar os etíopes a invadir o Sudão no xadrês da primeira guerra mundial. Deu tudo errado. Quem se deu bem foi o Lawrence, e ganhou o filme. Leo foi o perdedor e sua história ficou na sombra dos derrotados.

Mas o mundo da voltas e também a memória. O cara depois virou professor honorário em Frankfurt e depois diretor do museu etnográfico municipal. Todo baseado em suas “coleções” (leia-se saques realizados ao longo de toda a sua vida), que ele vendia para o museu que dirigia.  E quando morreu, ganhou esse obituário da Nature:

We regret to record the death, at the age of sixty -five years, of Dr. Leo Frobenius, the widely known German anthropologist and explorer, which took place at Biganzolo on Lake Maggiore, Italy, on June 9. The claim of Frobenius to be remembered in the annals of anthropology will rest on his intrepidity and assiduous devotion to exploration in African lands and among African peoples.” nature 142, 562-562 (24 September 1938) | doi:10.1038/142562a0

 

Morreu como “devoto explorador”, intrépido e grandioso. A memória é ou não é algo incrível?

É por isso que fico pensativo quando leio a entrevista do Pina-Cabral (grande antropólogo português,  doutor por Oxford) na Mana, atribuindo o motor da história da antropologia a uma luta contra a antropologia cultural americana…

Só para citar:

A questão é absolutamente esta. A Marilyn [Strathern] nunca assumiu uma posição de confronto com a antropologia americana. Pelo contrário. E quando ela escreve After Nature, em certo sentido até anda para trás. After Nature é um livro, como ela diz, cuja paternidade é de David Schneider, e eu creio que esse namoro com o culturalismo schneideriano, na segunda metade dos anos 90, desviou-a do projeto de repensar uma antropologia social.”

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3 comentários em “Leo Frobenius: questões de memória e um escroque

  1. Ótimo artigo… mas me ficou a impressão de que você não conhece o volume de narrativas africanas recolhidas por Frobenius e organizadas por e Douglas C. Fox, publicado no Brasil por uma certa editora Landy em 2005: “A Gênese Africana: Contos, Mitos e Lendas da Africa”. Mesmo se a organização e edição deixem a desejar, não me parece ser material de jogar fora (inclusive em matéria de informações sobre o próprio Frobenius).

    1. Obrigado Ralf! Vi o livro na net, não em mãos. Aposto que as narrativas são ótimas (sabe-se que o Frobenius era meticuloso nesse trabalho). Se quiser escrever algo sobre o livro, eu adoraria ler.

      1. Infelizmente li o livro emprestado, não o tenho mais em mãos e seria terrivelmente imprudente escrever algo sobre ele assim. Verifiquei ontem que existem vários exemplares disponível pela rede de sebos Estante Virtual, acho que a partir de 30 reais – mas infelizmente no momento só posso colocá-lo na fila, tem outros mais urgentes… 😀 Abraço & força aí!

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