Levi-Strauss re-encantado

Patrice Maniglier é “o cara”. Quem disse foi o EVC, em duas falas que assisti esse ano (uma na usp, via internet, e outra aqui em Sancarlos). Jovem filósofo, professor em Essex (Grã-bretanha), especialista em Levi-Strauss. Passou uma semana aqui em Sancarlos entre o PPGAS e o departamento de filosofia, deu um curso bacana sobre estruturalismo, gente boa. Fomos até o parque ecológico de sancarlos e o cara ficou pirado com os animais “levi-straussianos”: a anta, a capivara, alguns macacos etc.

Ele escreveu um belo texto em respeito ao nosso herói, quando este faleceu semana passada. (Veja aqui o texto). Especialmente interessante e de certa forma em consonância com o que escrevi no final do post “Levi-Strauss e heróis“, é o parágrafo final, no qual ele indica como o pensamento de LS pode ser uma abertura para pensarmos as nossas produções míticas:

Dans un autre domaine, il permet de comprendre comment la philosophie peut se nourrir d’un film pour teenagers comme Matrix : non pas en proposant une interprétation profonde, mais en acceptant qu’un film hollywoodien, comme le mythe selon Lévi-Strauss, n’a pas un sens figé, et qu’il en produit en combinant des aspects de la culture très éloignés les uns des autres, la religion et la bande dessinée, le cinéma et la métaphysique. Bref, qu’on se veuille “post-moderne”, “queer” ou “pop”, Lévi-Strauss nous a anticipés, il nous a situés ; et il nous a justifiés mieux que nous ne l’avions fait.” (depois, com tempo, traduzo, ok?)

As produções artísticas da nossa sociedade (e não apenas as da “alta cultura”, que ele dedicou a comentar no “olhar, escutar, ler”) são meio para pensar nossas próprias mitologias. Não é LS quem diz isso, mas é um de seus melhores “comentaristas”: o método nos ajuda nas situações mais inesperadas. Eu continuo achando que entendemos muito do nosso mundo fazendo análises estruturalistas da cartoon network.

Esse ponto de vista, que compartilho com Patrice “o cara” Maniglier, explica um pouco do momento fofinho que me permitiu colocar os dizeres do Calvin (Bill Waterson) aqui ao lado, na coluna da direita: há algo ali que possibilita, como a perspectiva de Maniglier, o reencantamento do nosso mundo, tão mitológico quanto outro qualquer. Explica também um pouco do que é interessante no pensamento de LS: o mundo que ele nos abre como potencialidade a ser explorada.

É por isso também que a onda de comentaristas/jornalistas de jornais tentando bravamente transformar o nosso herói em um combatende anti-relativista é tão deprimente: ela fecha o pensamento de LS dentro de uma contenda política mesquinha, entre os que acham que não ser relativista é legal e os que acham que não é (meio que traduzido em ser de esquerda = relativista e ser conservador = não-relativista). O mais novo exemplo (já citei um no post “Lévi-Strauss up side down“) é um texto do Daniel Piza.

E a coisa é simples, quem acha que o LS é, de alguma forma, um anti-relativista, está errado e não entendeu nada. Mas o negócio é que ele é um relativista muito mais sofisticado que o discurso relativista-ingênuo “da esquerda”. É a reposição do desentendimento que se colocou quando ele defendia a idéia (relativista) de sociedades frias e sociedades quentes: uma leitura rudimentar vai acreditar que existem de fato sociedades frias e quentes. Mas o que se dizia era que essas perspectivas sempre dependem de um ponto de vista.

Como tudo nesse momento político em que vivemos, a herança de LS já é um bem em disputa, e os conservadores, apoiados numa mídia de oposição, mostraram suas garras. E os antropólogos (herdeiros muito legítimos, por uma questão de formação) viramos os alvos dessa contenda.

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