A tradição anti-democrática

Já é uma tradição, dentro do PSDB, posturas radicalmente anti-democráticas no que tange à educação. Dia 13, numa sexta feira, foi publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo a nomeação de João Grandino Rodas como reitor da USP. Note-se que João Grandino foi perdedor da eleição na USP. O ganhador foi Glaucius Oliva. Ganhou, mas não levou. Bem PSDB, não? E ainda por cima numa sexta-feira 13. É ou não é um filme de horror?

Lembra o estilo do FHC, que nomeou o “interventor”  Vilhena na UFRJ (entre 1998 e 2002). É do DNA desse partido perseguir e mutilar o ensino público (deve ser pelo grande número de barões do ensino privado que participam do partido e da sua base aliada, no DEM). Na intervenção do Vilhena, o ministro da educação era o Paulo Renato. Agora, o secretário da educação em São Paulo é quem? Claro, Paulo Renato (voltarei a ele).

O mais chocante dessa afronta à democracia – pode-se questionar o processo eleitoral da USP, que é ridiculamente anti-participativo, mas o resultado do processo foi democrático, nos termos desse processo – é que a mídia simplesmente ignora. Não se vê críticas formais, dúvidas, estranheza, nada. Tudo que se diz é “João Grandino foi escolhido como reitor por Serra, ele foi o segundo mais votado”, ponto. Nenhum “como assim?”. Nem os Blogs mais críticos ao Serra dão destaque (o do Paulo Henrique Amorim, o mais anti-serrista, nem menciona; o Vi o Mundo, do Azenha, também não). O Blog do Nassif (que tem 60.000 acessos diários) coloca um texto relativamente crítico (clique aqui), mas depois insere um texto mais ou menos facista, contra as manifestações estudantis (clique aqui). Nenhum dos textos é do Nassif, mas fica um tom crítico contra a USP e especificamente contra os alunos de Humanas, que viraram uma espécie de bode-expiatório universal daqueles que criticam a universidade pública: são sectários, violentos, anti-democráticos, invasores e outras baboseiras. Sempre uma tentativa de deslegitimar qualquer movimento coletivo crítico (marca da mídia tucana e dos próprios tucanos).

Eis o que declarou o ganhador da eleição, Glaucius Oliva, em seu twitter:

“Pois é, parece que o Gov. Serra escolheu o Grandino para reitor. Espero que seja o melhor para a USP.”

“Quero agradecer as centenas de mensagens de solidariedade pela “nâo-indicação” para Reitor da USP, depois de vencer os 2 turnos da eleição.”

Pelo seu twitter, João Grandino nem tem coragem de comemorar a “vitória”. Nem tampouco em seu blog de campanha. O governador (?) Serra também não toca no assunto no seu twitter, afinal ele é autoritário, mas não é burro.

E isso dentro de um contexto bem peculiar, no que se refere à educação em São Paulo. Situação de desmonte e desesperança depois de muitos anos tucanos no poder (uma espécie de terra arrasada, que para ser ainda mais arrasada, se apóia em Paulo Renato, personagem comparável a uma praga biblíca sobre a educação).

Em entrevista recente (25.10.2009) à revista Veja (sempre ela), o prócere da destruição tucana defende a cobrança de mensalidades nas universidades públicas e atribui ao pedagogos da usp e unicamp a culpa pelo descalabro da educação em São Paulo (e também ao sindicato dos professores). Para o prócere do apocalipse tucano, “O que se discute hoje nessas faculdades está muito distante de qualquer ideia que seja cientificamente aceita, mesmo dentro da própria ideologia marxista. A resistência vem de universidades como USP e Unicamp, as maiores do país“”. O problema é um caso de ideologia (os pedagogos estariam interessados em fazer ideologia e não em educar).

A congregação dos professores de pedagogia da Unicamp respondeu com uma carta contundente (clique aqui). Dizem que se as universidades públicas de São Paulo formam, no méximo 25% dos alunos, como atribuir a elas a culpa do problema?

Com esse tipo de abordagem, sempre contra “o corporativismo”, o PSDB vai deixando seu recado: os sindicatos são sempre uma dor de cabeça (vide a carta-piti de FHC), qualquer problema (como o da educação) é atribuído ao corporativismo, seja de quem for. Pode-se até escolher candidato derrotado em eleição democrática, pois o vencedor é fruto de algum tipo de corporativismo (a acusação é que Glaucius seria próximo da atual reitora).

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