Uma regra para as falas dos presidentes

Você sabe, presidentes falam. Falam prá caramba, à exaustão. Quando eu fazia meu doutorado, uns anos atrás, fui ler algo dos discursos do Mário Soares (ex-presidente e primeiro-ministro português), prá entender algo daquela ideologia saudosista da lusofonia. Eram volumes, daqueles que ficam em pé sozinhos. Poucas coisas têm poder mais hipnótico. Deve ser melhor que lexotan.

É que presidentes falam. É da liturgia do cargo: comunicar, falar, encher nossos ouvidos e páginas de livros. Muitos historiadores, antropólogos, sociólogos, cientistas políticos devem teses e artigos a esse hábito de chefe Guayaki dos presidentes.

Eles falam, falam, falam e raramente se dá realmente atenção ao que se fala (com exceções diminutas em relação aos quilos de papel produzidos pelos discursos). Discursos protocolares, discursos para efemérides, discursos para comemorações variadas. Tanto é assim que quando se lembra de um presidente, é em geral falando algo (provavelmente a coisa mais relevante que ele falou nos anos de poder).

Mas aqui temos uma coisa incrível acontecendo: um presidente que fala e muita gente que realmente atenção ao que se fala. Cada frase, cada discurso, cada entrevista merece um destaque imediato, linhas e artigos, protestos, indignações. Quando o presidente Lula fala, o eco permanece por dias. Mas esse eco tem uma característica bem evidente, é sempre negativo. É preconceituoso, é envergonhado de um presidente que fala como um trabalhador qualquer. Que usa figuras de linguagem essencialmente populares, que fala como ele fala.

A mídia se embaraça e se contorce em cólicas a cada discurso do presidente, a cada evidência de sua origem social. Porque essa é a questão: a fala de Lula não esconde sua origem, a destaca. E isso, definitivamente, é intragável para os Marinho, Mesquita e quetais.

Num outro momento, escrevendo aquela mesma tese que citei acima, comecei a entender como o sotaque dos imigrantes brasileiros em Portugal era o que de fato os identificava. Era uma identificação linguística que a seguir transformava a percepção racial de quem ouvia sobre quem falava. O cara podia ter qualquer cor, mas se tivesse sotaque era classificado como mulato. Essa estranha situação me tornou alérgico à lusofonia (e a retórica apolítica da igualdade da língua) e me fez entender alguns mecanismos de discriminação disparados pela fala, como evidência incontornável de uma origem social.

O que eu sei é que a fala do presidente é uma afirmação de classe. E a mídia e a elite horrizada não se conforma. Querem que o presidente se cale, não para que não se diga mais nada, mas para que não se lembre sua origem de classe. Essa história de que pobre pode chegar a presidente é mesmo um veneno para nossos “formadores de opinião”. Então que o presidente se cale!

O paradoxal é que quem mais dá voz ao presidente é essa mídia, tentando ridicularizar a fala de Lula por todos os meios. Os milhares de artigos criticando a fala do presidente só reforçam aquilo que é o pânico desses grupos reacionários: sua origem de classe. E me pergunto: alguém acha que os livros do Mainardi, Kamel, Marcelo Tas (as provas mais cabais desse horror de classe) prejudicam a imagem do presidente?

Vamos inventar uma regra então: o prestígio de um presidente com as elites reacionárias é inversamente proporcional a atenção que se confere aos seus discursos.

E enquanto isso, Lula, que de bobo não tem nada, fala.

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