O Bacalhau de Lévi-Strauss

Tradução é um negócio complicado: difícil de fazer, fácil de errar. Um trabalho para estóicos.

Mas também é fruto de boas piadas, e eu não poderia deixar essa passar: Estava lendo o “Via das Máscaras” do Lévi-Strauss (ok, estou meio noiado com o cara), cuja edição em Português é da Editora Presença, de Lisboa. Resolvi cotejar a tradução com o original, já que comprei a bíblia da Pléiade, com a edição revista e comentada de alguns livros do Lévi-Strauss (escolhidos e revistos pelo herói).  Até que é legal o trabalho do tradutor Manuel Ruas, mas sempre se pode questionar algumas escolhas. Mas uma passagem é realmente cômica e, digamos, essencialmente portuguesa:

Veja o original em francês:

Communément appelés en anglais Red Cod ou Red Snapper, ces poisons de roche et d’eau profunde (…)(Lévi-Strauss, versão original [Pléiade, Gallimard], 2008, pg. 907)

Minha tradução tosca:

“Chamados comumente em inglês de Red Cod ou Red Snapper, esses peixes de rocha e água profunda (…)”

Agora veja a tradução do português:

“Comummente chamados em inglês Red Cod ou red Snapper, esses peixes não são bacalhaus mas peixes das rochas e das águas profundas (…)” (Lévi-Strauss, Via das Máscaras, 1981, editorial presença, Lisboa, tradução de Manuel Ruas, pág 45.”

Quá, quá, quá, quá!!!! Os caras têm que colocar o bacalhau em tudo! Quá, quá, quá. quá!!!

Isso certamente diz muito sobre o valor do bacalhau em Portugal. Tipo, a primeira imagem que vem à cabeça quando se fala em peixe é a do bacalhau. Aí o cara tem que dizer que o tal peixe não é um bacalhau, senão todos os mitos salish e kwakiutl vão virar um fado português.

Sorte a nossa que Bia Perrone-Moisés traduz o Lévi-Strauss nas edições brasileiras. A pergunta que me ficou é: qual será o nosso similar ao bacalhau?


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3 comentários em “O Bacalhau de Lévi-Strauss

  1. Bem, talvez o tradutor tenha querido salientar a diferença de significados entre “cod” (em Red Cod) e “bacalhau”.

    Em inglês, “cod” é o nome vulgar de diversas espécies de peixes do gênero “Gadus”, que vivem no Atlântico Norte, como o atlantic cod. Em épocas que não existia refrigeração em barcos, esse peixe só podia ser comido fresco perto do lugar onde era pescado, como Inglaterra e Noruega.

    Os portugueses pescavam o cod e secavam-o no sal para conservá-lo e transportá-lo a Portugal. O nome de peixe seco salgado em português é “bacalhau”. O bacalhau pode ser feito com diversas espécies, pertencentes ao gênero “Gadus” ou não. Bacalhau, na realidade, não é sinônimo de “cod”, assim como “charque” não é sinônimo de “agulha”.

    A confusão começa porque, quando se traduz “cod” em português, a palavra usada é “bacalhau”, ja que essa era a maneira que o codfish chegava em Portugal no passado. Apesar de todo peixe salgado ser bacalhau, nem todo bacalhau é codfish. Para piorar, existem alguns peixes que não são do gênero “Gadus” e que também são conhecidos como “cod”. Esse parece ser o caso do Red Cod, peixe em questão no trecho de Lévi-Strauss.

    Assim, para o portuga que lê Lévi-Strauss traduzido e vê “red cod” no nome do peixe e saca um pouco de inglês, pode-se fazer necessária uma nota ao pé da página. Também achei deselegante enxertar no texto original uma explicação. Parece copista da Idade Média que escrevia no meio de sua iluminura como ele estava cansado de desenhar.

    Abraços.

  2. Não resisti a deixar meu “grain de sable” em se tratando de tradução… é engraçado, sim, a necessidade e até “naturalidade” de traduções mais domesticadas por parte de algumas sociedades.. outras valorizam traços mais decalcados da cultura de origem da obra. As traduções portuguesas, em geral, acolhem essas interferências. As inglesas são mais reticentes e adotam critérios mais “estrangeiros” no texto. Mesmo nomes de personagens e de grandes pensadores são encontrados “aportugueizados”… Fréderique vira Frederico; Benoît, Benedito ou Bento, Peter Gabriel é Pedro Gabriel na boa.. e assim por diante. Isso é ainda mais sentido nas legendagens de filmes.. conversa que dá pano prá manga.
    Até a pontuação muda de cultura para cultura e, entre a cruz e a espada, o tradutor deve sempre levar em consideração esses “”detalhes”” da cultura de chegada e fazer sua escolha. Difícil é agradar gregos e baianos..

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