Placas estranhas

Eu tenho um problemas com as placas de sinalização em geral. Elas me irritam, me desagrada o tom imperativo. Não que sejam todas imperativas, mas uma boa parte é. Acho que a birra vem de quando eu pegava meu ônibus Gardênia, quase todo final de semana, entre Campinas e Itajubá.

Eram cinco horas de viagem (ninguém merece aquele ônibus). E eu sempre sentava no corredor, pois havia aquela chance de ir sozinho nos bancos. Claro que nunca funcionava, mas enfim, a gente se habitua com as manias. No corredor, a única coisa que chamava minha atenção era aquela plaquinha prateada lá na frente, que dizia: “CUIDADO DEGRAUS”. Eu tive milhares de horas com essas placas, pude conversar, trocar idéias e, gradualmente, me enfurecer com elas.

No fim, permanecia a dúvida: era para os degraus terem cuidado? Não deveria haver uma vírgula: “Cuidado, degraus”? Eu cheguei a conclusão, nessa conversa de anos, que a placa era uma aviso aos degraus (coitados, todo mundo vai pisando neles sem cerimônia). Claro, era tudo fruto de uma certa economia linguística que autoriza qualquer coisa nessas placas. Acho que quem pensa nas placas pensa em ordens sem pontuação e tem certeza que não há possibilidade de outras interpretações.

Mas o diabo é que elas existem. Toda essa história dos degraus fica sempre latente na minha cabeça e ontem no shopping outras placas despertaram a raiva cozinhada em fogo brando durante os anos de Gardênia. “CUIDADO PEDESTRES”. Só que nessa placa a confusão dos sentidos é ainda mais perigosa: é para o motorista ter cuidado com os pedestres ou para os pedestres terem cuidado com os motoristas? No segundo caso, estou autorizado a passar feito um louco pelo estacionamento, afinal os pedestres estão avisados para serem cuidadosos.

Esse duplo sentido é fruto desse caráter imperativo? E há um duplo sentido imperativo, o da própria placa, por um lado e o do cara que pensou a frase: ele só pode pensar que haverá uma interpretação única, sei lá. Mas a língua é um negócio ambíguo pra caramba.

Depois eu vi uma placa mais telúrica, e achei engraçado: “SENTIDO ÚNICO”. Então, qual sentido? A visão, audição, ou o tato? Ou o cara quer dizer por decreto que eu devo deduzir apenas um sentido do que ele está falando? Tipo, isso aqui não é para ambiguidades, o sentido é único. Que placa difícil essa!!

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