Pequenas memórias e antropologia artística

A memória é algo em debate, sabe-se desde sempre… Versões são contrapostas, vozes se calam, são silenciadas. E ninguém sabe direito o que vai ser lembrado, muito menos como. A desistência do Aécio em concorrer à presidência será vista como, num futuro distante? Como uma “jogada de gênio”, como diz o Nassif em seu blog (humm, que estranho), ou como uma avaliação realista da situação, como afirmaram os políticos da facção serrista da oposição? Tudo depende: depende de quem ganhar as eleições, depende do futuro político de cada um dos políticos (mas o fato da carreira do Serra estar terminando, enquanto a carreira – política – do Aécio ainda ter mais longevidade pode influir na leitura futura. Se o Aécio vir a ser presidente num futuro 2014 ou 2018, tudo será lido por uma ótica diferente).

Se isso é verdade para grandes questões, também para pequenas coisas a regra opera. Vai aqui um mini-exemplo. Final de semana passado foi a formatura (da pré-escola!) do meu filho Cassiel. Cerimônia com toda a pompa que condiz com o primeiro ritual de passagem do moleque. Como em todas as cerimônias, havia um ponto alto, que não foi exatamente a entrega do diploma, mas a exibição de um pequeno vídeo de fotos, como lembrança da turma.

Engraçado que o climax da cerimônia seja um discurso sobre a memória de um grupo de crianças de 6 anos. Não era para os pequenos, claro, era para os pais: uma narrativa da paternidade e da maternidade. As fotos eram de cada um da turma, em três momentos (bebê, por volta dos 4 anos, e atual), junto aos pais em alguma delas. E também muitas fotos da turma, em momentos diferentes.

A “disputa” começou na produção do vídeo: a professora da turma fez um, a dona da escola (e mãe de uma formanda) fez outro e o “coletivo” dos pais fez outro. O que foi mostrado na cerimônia foi o da dona, a professora distribuiu o seu entre os pais dos alunos na mesma semana, e os pais distribuíram o seu durante o evento.

A pergunta que me fiz é “porque três videos”? Porque esse excesso de memória? Porque tantas narrativas? Não sei bem, mas acho que todos quisemos expor formas diferentes de contar o mesmo processo. O encadeamento de fotos em seguida, contando uma mini-epopéia, parece ser o meio propício para contar essas memórias. Há diferenças nos encadeamentos, claro. Cada um conta de um jeito. Mas todos da mesma forma.

Eu acabei participando da brincadeira, e fui tirar fotos dos pimpolhos na escola, para fazer um dos vídeos. Você sabe, é o meu padrão básico de intervenção artistica fazer esses videozinhos, que são narrativas sobre um tema. O meu video oficial teve que inserir as fotos das crianças com idades diferentes, mas o que gostei mesmo de fazer é esse abaixo, que segue a idéia de uma intervenção situada no tempo (fotos tiradas num intervalo de 30 minutos), mostrando um clipe do cotidiano dos meninos, misturado com as pertubações que minha presença gerou (foi uma bagunça). É algo como uma “sensação” etnográfica.

Seria legal expor os três videos “oficiais”, mas eles não são meus, são dos pais e de suas memórias. Segue aí a parte que me toca como uma outra pequena ação do que chamo de antropologia artística.

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