Os alunos (e o professor) da Unicamp no Haiti

Está causando celeuma o blog dos pesquisadores da Unicamp que estiveram no Haiti até esses dias. No Blog eles escreveram um post criticando a atuação da embaixatriz (ela é esposa do embaixador, portanto não tem cargo oficial nenhum).

Fazem as seguintes observações sobre o encontro com a senhora:

Ela não nos perguntou nada. Não sabia quem éramos, ou o que fazíamos aqui. Quando soube que de um grupo da Unicamp se tratava, não titubeou: “A EMBAIXADA NÃO TEM NENHUM COMPROMISSO COM A UNICAMP. O EMBAIXADOR PROIBIU QUE FOSSEM HOSPEDADOS EM NOSSAS DEPENDÊNCIAS. ELE É O EMBAIXADOR, ELE MANDA; SE HOSPEDAMOS VOCÊS TEMOS QUE HOSPEDAR TODOS”.

E seguiu, com pérolas: “A EMBAIXADA NÃO VAI EVACUAR NINGUÉM PORQUE EU NÃO VOU SAIR DAQUI. VOCÊS DEVEM VOLTAR PARA O BRASIL COMO VIERAM. VOCÊS SABEM ONDE FICA O AEROPORTO, COMPREM PASSAGEM; VOCÊS SABEM ONDE FICA A RODOVIÁRIA, DE LÁ SAEM ÔNIBUS PARA A REPÚBLICA DOMINICANA”. E prosseguiu com a máxima: “NÃO TEMOS NENHUMA RESPONSABILIDADE SOBRE VOCÊS. VOCÊS ESTAVAM NO LUGAR ERRADO NA HORA ERRADA, SINTO MUITO”.

Bom, isso não parece ser uma atuação apropriada, mesmo que a embaixatriz não tenha cargo nenhum e, oficialmente, o Itamaraty não tenha que responder à conduta dela.

A Unicamp divulgou nota sobre o assunto, pedindo que o governo desse atenção aos alunos. O caso saiu em vários jornais e a um deles o MRE declarou que não tem nada a declarar.

No blog do Luis Nassif o pau comeu, ele replicou o post dos pesquisadores, depois postou opiniões a respeito (3, todas favoráveis à embaixatriz: esse e esses dois). Houve uma enxurrada de comentários. O tom varia bem, mas há um grande preconceito em algumas passagens. Mas antes, gostaria de comentar os posts favoráveis à Embaixatriz. Eles estão na linha: “eu conheço a senhora, e ela não seria capaz de fazer isso, então é tudo mentira”. Daí, nos comentários, a coisa descamba para chamar os pesquisadores de oportunistas.

Então, que coisa mais chata. Se é para ficar na história do “não critique amigo meu”, bom, conheço o Omar (o professor) a longo tempo, e ele seria incapaz de inventar uma história assim.  (se alguém quiser ver o lattes do cara, clique aqui). Tem uma longa história com o Haiti (desde 1998).

Então, definitivamente, a narrativa dos caras é verdadeira. Pode estar eivada de indignação, de stress pelo desastre, mas que aconteceu, aconteceu. A atuação da embaixatriz também pode contar com algum desconto pela situação extrema, reconheço.

Mas a repercussão blogueira de que eles são oportunistas, que querem criticar a Minustah para atacar o Lula, que são garotinhos mimados, isso é realmente irritante. Ronda o patrulhamento: não se pode falar mal das forças brasileiras no Haiti, não se pode criticar a postura delas, temos que engolir que “nossa” atuação é a melhor do mundo.

Outras manifestações são eivadas de um outro tipo de preconceito: se os caras estavam lá, porque não estavam ajudando? Pense bem: o seis alunos e o professor, no meio do desastre. Também com falta de bens, água etc. O que poderiam fazer? Eles são bombeiros? São militares da força de paz? Têm instrumentos técnicos de ajuda? Bom, eles estão tão jogados na situação quanto os Haitianos (com a diferença que puderam voltar para uma casa). Eram tão úteis quanto qualquer um dos haitianos que estavam lá. Sacou o preconceito? É que se acha que como eles estavam lá, eles teriam, naturalmente, uma capacidade de ajudar (tipo super-heróis brancos entre os selvagens, tipo o tim-tim na África). Enfim, como se diz, me poupe.

E tem maluco dizendo que eles falam mal das forças de paz porque são enviados do Paulo Renato ao Haiti. Tipo, o cara sabia que ia rolar o terremoto, mandou uns alunos da Unicamp para lá a fim de que criticassem tudo que pudesse ajudar o Lula (a força de paz da ONU, que têm forças brasileiras, pode ajudar o Lula?). Bom, se alguém tem pouco apoio político no IFC H  da Unicamp (de onde saíram os pesquisadores), esse é o Paulo Renato. Quando eu estudei lá (na década de 90) a gente tinha um departamento de antropologia com mais de 20 docentes, agora o depto está minguando porque não se contrata ninguém e os professores vão aposentando. Efeito PSDB no poder (que é sentido especialmente nas áreas de Humanas das estaduais paulistas – vide o protesto que os alunos da FFLCH da USP tiveram que fazer para se contratar docentes).

A questão que fica dessa história é: se você critica alguém de berço vai levar porrada. E  todos os seus argumentos vão ser criticados do mesmo modo.

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Um comentário em “Os alunos (e o professor) da Unicamp no Haiti

  1. Os que atacam os pesquisadores podiam simplesmente fazer uma consulta aos funcionários da Embaixada brasileira para ver que o relato dos pesquisadores é até pouco diante do que aconteceu por lá… e que é um absurdo a embaixatriz (que não tem cargo no serviço exterior brasileiro) falar, reiteradamente, em nome da Embaixada.

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