Um desenvolvimento desumano?

Duas coisas me fazem temer o tipo de desenvolvimentismo que ora está em pauta. Mas antes, é bom afirmar que sou esquerdoso e não votarei no Serra (nem em ninguém da união demo-tucana).

As duas coisas têm relação com o métier do antropólogo e vêm da FUNAI, de alguma forma. A primeira é o licenciamento da Usina de Belo Monte (já escrevi sobre isso, e também a Clarice ), e a segunda é o decreto de reformulação da FUNAI, assinado a semanas atrás.

Comecemos pela segunda. A FUNAI foi reestruturada, mas isso deu um grande e enorme rolo. Até agora há índios acampados e protestanto contra a decreto em frente à FUNAI em Brasília (você pode acompanhar toda a mobilização indígena no blog do Mércio). É uma dessas situações pantanosas, com interesses de todos os lados, na qual é muito difícil tirar um cenário isento. Algumas poucas organizações indigenistas se manifestaram a favor (como o ISA). Várias se manifestaram contra, como o CIMI. O sindicato dos funcionários da FUNAI se manifestou contra. Muitas associações indígenas se manifestaram contra o decreto (confira uma lista de manifestos no Blog do Mércio).

Há duas coisas claras nos protestos: os índios temem que a reestruturação tire os agentes da FUNAI de perto (houve extinção de postos da FUNAI) e reclamam por não terem sido consultados em momento algum. A FUNAI se defende e diz que não haverá abandono de ninguém, que apenas os nomes mudaram e a assistência continuará operando. Parece que os índios não estão acreditanto muito, tanto que estão lá protestando.

cenas de protesto indígena

No caso de Belo Monte, já sabemos que a FUNAI concedeu rapida e celeremente a autorização para construção com um parecer técnico absolutamente frágil (veja esse post e entenda). Com esse parecer o IBAMA pode dar seguimento ao processo de licenciamento ambiental. Em relação a esse processo, todos (eu disse TODOS) aqueles que têm alguma relação com as populações indígenas se manifestaram contra. O parque do Xingu vai sofrer misérias com a construção de Belo Monte, será um desastre étnico de proporções coloniais.

Nos dois casos me preocupa algo que alguns dos envolvidos têm manifestado: a direção da FUNAI têm agido como uma correia de transmissão desse novo projeto desenvolvimentista (por isso parece ter tanto apoio de Lula): a principal incumbência é não atrapalhar, dar celeridade aos processos, tirar obstáculos da frente. Os obstáculos, no caso, são as populações indígenas. Temos uma FUNAI trabalhando contra os índios. O decreto aprovado, por exemplo, é prenhe dessa concepção e trata de “desenvolvimento indígena” (hello, como assim? é por decreto que determinamos como os caras devem viver? mas eles não têm direito de ser diferentes?).

Se esse desenvolvimento que está por trás da Dilma é assim, sinto dizer, é desumano. Passa por cima das populações mais vitimizadas por todos os desenvolvimentos brasileiros, e passa por cima como um trator. Tenho tido cada vez mais problemas para compactuar com esse tipo de rolo compressor e acho difícil ignorar. Como antropólogo, é difícil, e talvez seja mais fácil para outros brasileiros pagar esse preço (porque pimenta nos olhos dos índios é refresco, e se o ar condicionado estiver funcionando daqui a 20 anos, tudo bem). E eu não quero votar na Marina, que virou uma sucursal demo-tucana (e esses não têm nenhum problema com esse tipo de desenvolvimento).

Vai aqui um grito de desilusão com o que vem por aí. O desenvolvimento desumano.

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5 comentários em “Um desenvolvimento desumano?

  1. Igor, entendo todos os problemas que vc colocou sobre a usina, mas dizer que ela é para que as pessoas tenham ar condicionado é um pouco demais. existe uma decisão importante a ser tomada: a matriz hidroelétrica no Brasil nos deu relativa estabilidade para suportar nosso crescimento (pessoas pobres, com melhor condição de vida, precisam de geladeira e outros eletrodomésticos, suas escolas e empregos serão mais elaborados e tecnológicos, o crescimento do padrão de vida do brasileiro demanda mais energia) com custo baixo e menor poluição que termoelétricas e nucleares. as novas tecnologias verdes não tem escala para suprir o gap energético, a alternativa atual é entre usinas hidroelétricas e termoelétricas muito poluentes. para manter a cultura indígena intacta, devemos condenar o resto do país à poluição? qual a decisão aqui?

    1. Então, Kiko. Não se fala em manter cultura indígena intacta (isso não existe). Fala-se em permitir que eles continuem existindo da forma que querem (é um direito constitucional). e para isso, eles precisam do rio xingu e não apenas um veio de água que não permite condições de subsistência. E devem eles pagar o pato de novo? devem deixar de ter condições de existência em prol da sociedade brasileira? É sempre assim: “ok, entendo seu ponto de vista”, “MAS…”. O “mas significa sempre ferrar os indígenas. Não é possível fazer outra coisa? é mesmo impossível ferrar sempre os mais fracos? que diabo de preço é esse que se paga? Eu simplesmente não acho justo!!

      1. veoi de água que não serve pra nada? não é um pouco de exagero? vc acha mesmo que o resultado é acabar com o rio? concordamos que não há obra sem impacto. concordamos que os estudos envolvem propostas de como reduzir ao máximo os impactos. e não são só os índios: se vc não percebeu, o Brasil é hoje um canteiro de obras preparando o país para crescimento e melhoria do padrão de vida dos cidadãos. Não sou contra o rigor nos estudos ambientais, pois sei que se for pelos empresários, passa-se por cima de tudo com um trator. mas isto não pode ser paralisante. As alternativas se esgotam, e sempre vão ter impacto (uma nova usina nuclear vai trazer riscos para uma comunidade indígena em Angra, uma termelétrica vai impactar quilombolas, um porto vai destruir alguns formigueiros, e por aí vai). temos que fazer, e temos que equilibras as vantagens econômicas com menores impactos possíveis ambientais e sociais.

      2. Pois é! também acho. Só que a curva do rio Xingu vai ter a vazão diminuída significativamente (está nos relatórios, mano, é só ler) e essa redução significa o fim da possibilidade de pesca para os Kayapó Xicrin, por exemplo. E técnicos “discordam sobre isso”. Sabe como é, um cara fala que até vai dar para pescar, outro diz que não será mais possível, mas aí o trator da funai passa em cima e autoriza tudo. E as compensações razoáveis foram para o espaço. E os que vão ser prejudicados são sempre os mesmos. Basicamente, isso está errado!

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