Avatar mais e menos

Então, post meio fora de hora, mas só vi o tal do filme agora. O problema é que não resta muito a dizer, todo mundo escreveu pra caramba sobre isso.

Mas de tudo que eu li, o melhor comentário que escutei (li muita coisa, mas o mais legal me foi dito, ok?) foi o do meu amigo e colega de departamento Piero Leirner (o Piero é desses que a gente pensa, “putz, porque o cara não faz um blog?”. Sorte a minha que escuto o cara no bar). Ele me disse “o Avatar é um filme mais e menos. Nas partes em que é mais é mais demais e nas que é menos é menos demais, não é um filme mais ou menos”.

Senti exatamente isso. Legal o diálogo “é o terror contra o terror”… Os gringos se colocando no lugar dos selvagens? Claro que é. E é legal, mano. Agora o humano “incorporado” liderando a reconquista, bom isso é hollywood demais né? Tipo “último samurai”, aquela merda de filme. Ou o “dança com lobos”, toda essa filmografia da culpa, que custuma idealizar os nativos como santos. E criando esse dilema: “Pô, os caras não eram santos? e agora tem índio aí derrubando árvore!”. Os estereótipos são mesmo uma prisão.

Pros antropólogos fica aquela coisa de relembrar do debate entre Sahlins e Obeyesekere (o primeiro é o antropólogo mais interessante vivo, o segundo é um cara que fez sucesso batendo no primeiro). O obeysekere criticava a antropologia do Sahlins no diapasão de que há uma mitografia ocidental que atribui aos ocidentais sempre o papel de deuses entre os nativos. O Sahlins falava de identificação do Capitão Cook com o deus hawaiano Lono.

Sahlins destruiu a argumentação do Obeyesekere, que era bem frágil (em relação à obra do Sahlins). Mas depois de ver o filme, é inegável admitir que há mesmo uma piração de deificação ocidental. O outro lado disso é uma outra piração “eram deuses os astronautas?”, sobre a qual ainda escrevo um post.

Uma curiosidade é o nome do planeta dos Na’vi: Pandora. Tradução barata, via wikipedia: “a que tudo dá”, “a que possui tudo”. Faz sentido com o filme, tipo mãe natureza. Mas Pandora, bem, ela abriu a caixa do marido (epimeteu, irmão de prometeu) e acabau espalhando o caos por aí. Desde então convivemos com a desgraça da vida humana. Um pequeno trecho do Vernant, sobre Pandora:

“todos os sofrimentos que os homens … suportam … Hesíodo indica claramente sua origem: Pandora”

Em homenagem a essa conexão entre Pandora planeta e Pandora mulher fruto de todos os males, coloca abaixo uma imagem da causadora de todos os males dos Na’vi, segundo a teogonia de Cameron:

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7 comentários em “Avatar mais e menos

  1. Ótimo post. Gostei da relação com essa da auto-deificação (tem hifen?) ocidental. Dava, talvez, também para se falar na ideia, também comum no universo anglo-saxônico dos impérios do “going native”.

  2. muito bom ! ahehahu..e o mais imprevisível foi a imagem dos Smurfs … hauheuah
    se eu não tivesse um trampo de 5 paginas pra escrever, eu leria mais os posts aqui… heheh.
    muito legal o Blog …

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