Negros, mestiços, pretos ou pardos

Outra conversa fiada comum aos críticos das cotas é a defesa do direito à definição identitária de “mestiço”, “mulato” ou “pardo”.

Como as cotas são para negros, bom, tem-se aí o desaparecimento cínico dos mestiços, a negação da essência mesma da definição da brasilidade.

Um bom aluno levantou essa bola num comentário ao post anterior.

Sobre isso, tenho coisas a dizer, bem como as disse em plenárias que decidiram pelas ações afirmativas na UFSCar.

1) Embora as cotas sejam para negros, a definição de “negro” nos editais dos vestibulares com cota é como a que segue; “Alunos negros, ou seja pretos ou pardos” (ver aqui o edital da ufscar, por exemplo). O editais usam as categorias do IBGE, claro. Assim, se o cara se sente mulato, mestiço e pardo, pode acessar as vagas sem problema, inclusive sem problema identitário. Pode dizer que é mestiço e ter direito legítimo à vaga por cota.

2) a galera que fala que a inserção da categoria “negro” vai causar um caos social por eliminar o mulato está, basicamente, delirando. Mas poderíamos evitar esse problema, se chamássemos as cotas para negros de cotas para pretos e pardos. A gente sabe que nomenclatura é importante, mas aqui é um grande exagero: o nome “negro” instauraria o caos racial. Será uma outra forma de racismo?

3) isso não que dizer que não haja um problema aí. Há. Para mim ele é muito claro. Quando as cotas são para pretos ou pardos (indistintamente), colocamos para concorrer às vagas por cota pretos e pardos. E aí a porca torce o rabo, porque sabemos por milhares de estatísticas (que céticos dizem que são inventadas maquiavelicamente por analistas do IBGE aliados ao movimento negro, ou até mesmo por militantes infiltrados nas hostes acadêmicas) que pretos têm menos renda que pardos. Quando se colocam as duas categorias juntas para uma política só, é bem provável que atinjamos mais pardos que pretos, pois os primeiros terão, estatísticamente, mais condições de competir.

4) o risco é justamente não atingir o público que mais precisa de oportunidades: os pretos. Por isso defendo e defendi que parte das cotas fossem destinadas a quem se define como preto, e outra parte para os pardos. Acho uma boa idéia que haja mais cotas para pretos, um pouco menos para pardos (a conta é uma coisa para quem entende de números e pode ponderar os dados de exclusão, e também uma coisa política, de investir numa população mais carente). Assim, evitaríamos um risco de exclusão dos pretos no seio das cotas para negros (pretos + pardos).

5) mas é preciso ser muito tosco para achar que isso inviabiliza toda a política de cotas. Ela exige é um acerto de sintonia nessas políticas, isso sim. Por isso quando tive o ponto de vista derrotado em assembléia, passei a defender as cotas para negros (pretos + pardos), que continuam fundamentais. Acredito que análises sobre o impacto das medidas poderão produzir esses ajustes que me parecem necessários. Ou não, de repente pode ser que haja uma distribuição equânime de pretos e partos no interior das cotas.

6) continuo assombrado com os caras de esquerda que são contra as cotas, cada vez mais. Agora parece que pegou essa coisa de duvidar das estatísticas (“mas os dados estão inflados”). E aí eu penso que esses caras se colocam ali lado a lado com o Kamel, com o Demóstenes, como o Magnoli, com o Reinaldo (cruz credo) Azevedo. Não estranham esse emparelhamento de ombros?

Na foto dois esquerdistas se abraçando: um deles não é favorável às cotas.

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2 comentários em “Negros, mestiços, pretos ou pardos

  1. Além de desviar o foco das reivindicações sociais por melhorias nos serviços públicos assim como o foco dos conflitos essencialmente de classes, as ações afirmativas do atual governo não contemplam todos aqueles que os ativistas dizem representar, inclusive os inseridos nos segmentos dos quais são retirados indicadores sociais que apontam as chamadas desigualdades raciais. Nem poderia, obviamente, já que o objetivo é outro.

    Vejamos:

    A agregação de “pretos e pardos” do censo e outros levantamentos configurando a ‘população negra” visa
    difundir a idéia de que “pardos” correspondem a uma população homogênea,
    identificada exclusivamente com o afrodescendente mestiço/mulato de cor
    escura e traços fenotípicos negróides bem pronunciados, o que é falso.
    Daí o sistema, ao mesmo tempo que se vale das estatísticas e indicadores
    sociais desta gama populacional para se legitimar, não se obriga a
    incluir todos nos programas “afirmativos” derivados das mesmas
    reivindicações baseadas nos tais dados.

    Só esclarecendo, para quem não sabe, que a tal auto-classificação do
    censo é relativa. Praticamente ninguém se define como pardo, as pessoas
    utilizam inúmeras terminologias que indicam diferentes tipos e variados
    graus de miscigenação as quais o pesquisador enquadra tudo numa só
    categoria. Um caboclo de Manaus ou um mulato claro de Salvador nem sabe
    que a tal “maioria negra composta pelos auto-declarados pretos e pardos”
    tão divulgada pelos ativistas da negritude oficial se refere a eles,
    por isso não se inscrevem nas cotas ou quando se inscrevem são barrados e
    a repercussão do episódio nunca aponta essa contradição

  2. Não me canso de repetir que pardo é apenas fenótipo, e não uma etnia ou grupo racial. Para o IBGE, a população negra é composta pelos brasileiros pretos e pardos. Pretos são os negros com os caracteres africanos típicos (miscigenados ou não), e pardos são os negros cuja miscigenação é mais facilmente perceptível em sua aparência. Portanto, pardos são oficialmente negros mesmo não tendo a pele tão escura ou traços fenotípicos negróides bem pronunciados.

    “Mulato” e “caboclo” não são grupos étnico-raciais. Na verdade não existe mais do que uma raça humana (conforme já foi confirmado por pesquisadores), então é óbvio que o sexo entre criaturas da mesma raça não poderá resultar em seres misturados (mestiços). Portanto, os verdadeiros RACIALISTAS são aqueles que insistem em “raças mistas” ou “raças intermediárias”.

    Existe sim grupos de linhagem ancestral, que são brancos (caucasóides), negros (o grupo negróide engloba capóides e australóides), e amarelos (neste grupo também estão os indígenas das três Américas pois sua ancestralidade é asiática). Porém, no mundo inteiro os filhos de negros com brancos são classificados na população negra. Naturalmente o IBGE baseou-se nessas mesmas orientações da genética de populações para classificar os brasileiros pretos e pardos no mesmo grupo étnico-racial. Portanto, há um fundamento antropológico e até genético; além do aspecto social e cultural, é claro!

    Em relação aos indígenas miscigenados, indico o artigo “Limpeza Étnica e Racial no Brasil”, do frei Florêncio Vaz, que é antropólogo e doutor em Ciências Sociais. Nesse artigo ele fala da extinção da identidade indígena no Brasil: “O neto do branco é branco, o neto do negro é negro, mas o neto do índio é apenas descendente?”

    Os defensores da esdrúxula identidade de “mestiço” são tão hipócritas que, ao não aceitar que não há nada de errado em ser NEGRO E MISCIGENADO ou INDÍGENA E MISCIGENADO, eles simplesmente exigem a mesma “pureza racial” característica dos mais acalorados discursos nazistas… Eu sou um negro miscigenado. Qual o problema? Mestiço é que eu não sou!!!

    O IBGE, em uma de suas Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios (PNAD), recebeu nada menos do que 135 declarações de cores diferentes. Algumas delas a seguir: acastanhada, agalegada, alva-escura, alvarenta, cardão, enxofrada, lilás, queimada-de-sol, roxa, sapecada, etc, etc.. Mas antes de cair na gargalhada, devemos entender que todas essas respostas descabidas nada mais são do que o retrato da ignorância do povo brasileiro.

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