transparência, invisibilidade

Primeiro: não sou flamenguista. Até entendo que alguns insistam nisso, mas enfim…

Mas o ataque do flamengo nos deu lições de sociologia aplicada, lições que a nossa justiça não entendeu em outro caso. Primeiro, espetacularmente, vimos o Adriano desmontando uma bomba relógio: o cara simplesmente confessou uma briga de casal, expôs o problema, lamentou, admitiu a dificuldade para lidar com as emoções etc. De uma hora para outra o sujeito que pintava como alcóolatra irresponsável na mídia esportiva virou um grande amigo de todo mundo, contando seus problemas de uma forma incrivelmente honesta. Quando trouxe à luz os problemas que deveriam ser de ordem privada, desmontou a capacidade da mídia de criar monstros em cima do “escondido”.

Na mesma semana Vagner Love, admitiu ter estado numa festa na favela e admitiu que havia traficantes armados por lá. Então, alguém não sabia disso? Até as pedras das ladeiras de Kinshasa no Congo sabem disso (ok, sei lá se Kinshasa tem ladeiras, mas deve ter pedra). Todo mundo sabe que muitas favelas são governadas por traficantes. E todo mundo sabe que qualquer coisa que aconteça nesses lugares conta com a presença dos soldados do tráfico. Então, se há uma festa por lá, todo mundo sabe o que está acontecendo. Mas ninguém pode ver na mídia, esse é o problema. Quando o Love foi para a festa e um vídeo dele andando cercado de dois caras armados foi divulgado, foi aquele barulho. Basicamente, é o contrário do que aconteceu com o Adriano: essas coisas ninguém deveria ver. É uma vergonha quando as evidências da ausência do estado se materializam.

A resposta do Love foi incrivelmente sincera: eu sou da favela, vivi lá, frequento aquele lugar. Aquele é lugar dele, oras. E isso quer dizer: sempre convivi com os soldados do tráfico, como qualquer morador de favela. E ninguém sai na mídia porque foi em festa que tinha traficante armado na favela, a não ser que seja o Vagner Love. Aí não pode: vai ser investigado pela polícia civil. Cometeu um crime horrível: deu visibilidade à incapacidade do estado. Tornou visível o que deveria ser invisível.

Enquanto dois homens públicos e de origem humilde expunham sinceramente suas vidas, com efeitos opostos, o Estado expunha também uma terrível dialética visível/invisível: retirava de uma mãe cigana seu filho, à força, em frente às câmeras. Em Jundiaí, O juiz da Vara da Infância e da Juventude determinou que a criança fosse retirada da mãe, pois esta estaria utilizando-a para conseguir esmolas (estaria “visibilizando” a criança, que não poderia ser assim explorada). A decisão foi tomada por conta de uma denúncia anônima, mas muitos confirmaram que ela estava apenas lendo mãos (não pedia esmola) e levava seu filho no colo.

Foi um ato de preconceito: os ciganos, vitimados por um preconceito que os delega a uma invisibilidade total, quando apareceram foram imediatamente cerceados pelo poder público. Um filho tomado dos braços em instantes. A sorte da mãe cigana foi ter sido filmada perdendo o filho, imagem que sensibilizou quem tem algum coração. Depois da repercussão, o mesmo juíz determinou a devolução da criança (a mãe cigana teve assistência jurídica de entidades que se sensibilizaram).

O fato é que se as câmeras não tivessem filmado a separação, a mãe cigana ainda estaria chorando pelo filho. Imaginem quantos não sofrem por infringir leis não escritas de visibilidade/invisibilidade? O ataque do flamengo, de alguma forma, produziu um curto-circuito nessas regras, expondo o que não deveríamos ver, com efeitos distintos. O ataque do flamengo nos faz ver melhor o que aconteceu com a mãe cigana.

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3 comentários em “transparência, invisibilidade

  1. Quanto ao Adriano, sei lá, a entevista pode ser uma confissão de algo menor para afastar as especulações sobre outras coisas que dizem ter rolado na festa.

    Mas quanto ao Wagner Love, matou a pau. A naturalidade com que enfrentou a imprensa, como que perguntando: “mas vocês não sabem que na favela é assim”? E se a polícia pegar no pé dele por conta do fato, as outras mil pessoas que estavam lá poderiam apresentar-se às autoridades e confessar crime idêntico: ter ido a uma festa na favela.

    Na realidade, pobre que consegue transcender suas origens tem a obrigação de renegá-las, segundo nossas elites. Mais um motivo para odiarem o Lula, que continua achando que feijão com farinha, a comida da sua infância, é o manjar dos manjares.

  2. É interessante os choques que alguns setores da sociedade tem ao “analisarem” certos acontecimentos. Os soldados do tráfico são o exemplo do crime que deve ser combatido a qualquer custo e quem estiver compartilhando o mesmo espaço deve explicações a sociedade e ao estado. Agora o estado talvez seja criminoso ao exercer a força e simplismente arrancar uma criança dos braços da mãe sem maiores explicações. Onde está o estado? me parece que em local algum.

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