The Cure e a memória

Esse é um blog drive through, acho que só tenho tempo prá pensar num post quando estou no carro entre ribeirão e são carlos (numa cidade eu moro, noutra eu trabalho).

Inevitável que os posts sejam inspirados pelo que rola no cd-player. Sabe como é: cana-de-açucar por todos os lados, retas e retas… a música acaba te levando pra um estado alfa.

Esses dias estava ouvindo o incrível e maravilhoso CD do Cure, de 2004 (isso mesmo, recente pra caramba, e os caras ainda lançaram um em 2008). Chama-se “the cure”. Tudo bem, o nome não é tão criativo, mas o CD é do caralho. Começa com uma porrada, “Lost”, mais Robert Smith impossível.

E foi isso que me atacou, dentro da minha cabeça tortuosa. Era a segunda vez que escutava o tal cd, tinha acabado de “comprar”. Embora fosse um cd formalmente desconhecido, era como se eu o escutasse há 23 anos (que foi quando ganhei o “The head on the door”, que é de 85, mas ganhei em 87). Cara, aquilo é the cure demais, parece que saiu do meio do kiss me kiss me (se vc não sabe, é outro disco dos caras – na época ainda eram discos, LPs).

Fiquei achando incrível que o Robert Smith tenha continuado tão Robert Smith. Porque se você pegar o som de 2004 e qualquer outro do Cure da década de 80, será a mesma sonoridade. Parece até que ele usa os mesmos instrumentos, mesas de som, pedais, sei lá. Não dá pra reconhecer que o The Cure (2004) foi feito no século XXI.

capa do cd

Isso tem um lado absolutamente reconfortante. Cara, aquilo desce redondo. Como se eu estivesse em casa. E na verdade, eu estava: na casa da minha memória, confortavelmente instalado. Uma novidade sonora que funciona como um puff antigo para pôr os pés, sacou? E fiquei lembrando da época da Unicamp – sabe aquele idílio da faculdade que a gente inventa quando saiu de lá? E fiquei lembrando por conta de uma música que eu não conhecia e não escutava na época. Mas basta a sonoridade “aconchegante”. A memória opera por caminhos tortuosos.

E claro, às vezes acontece o contrário: há sons de uma mesma banda que marcam sucessões no tempo. Tipo escutar o “unforgettable fire” do U2, depois escutar o “achtung baby”. Daí minha memória separa bem década de 80 da década de 90.  Ou sei lé, Bowie, para radicalizar. Parece mais natural esse caminho de ir se transformando, mudando as sonoridades. O Cure parece uma excentricidade: radicalmente igual a si mesmo, confunde a minha memória.

abaixo, minha cabeça quando escuto o Cure

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2 comentários em “The Cure e a memória

  1. Sei exatamente do que você está falando.

    A memória é algo impressionante. Aliás, não é só com a música que isso acontece, os cheiros, os sabores também têm esse poder. Ainda bem que somos seres de memória, é extremamente chato viver só no tempo presente. A memória que traz aquela sensação do conforto e do bem estar é como um afago na alma. Sábado tive essa mesma sensação, fui a um bar aqui na minha cidade e quando cheguei lá tinha uma banda se apresentando que tocava as músicas da década de 80/90, é claro que tocou “The Cure”, mas também tocou a música do meu primeiro beijo, a música que ajudou a curar a minha primeira dor de cotovelo. Tocou também a música que eu adorava ouvir enquanto estudava para o vestibular em 1989, tocou também as músicas que ouvíamos nas sextas-culturais da faculdade, a música que ouvi quando conheci aquele que seria meu marido, (agora ex). Aí descobri aquilo que os Gregos já sabiam: a música tem realmente poderes mágicos. Saí de lá pelo menos 15 anos mais nova, ou, com o espírito 15 anos mais novo.

    Ps: Esse CD do The Cure, do qual estas falando, escuto quase todos os dias – é definitivamente The Cure, concordo plenamente.

  2. Dos sentidos que instigam a minha memória, a audição é a que me tráz imagens mais nítidas, principalmente as que eu tive o prazer de ouvir nos anos 80, e The Cure, inegavelmente, é a cara desse tempo. Quanto a imutabilidade sonora dos caras, confesso que não tinha reparado nisso. O que mais me chama atenção na música do Cure é o tempero na medida certa que resultou numa música entre o Punk Rock e aquelas melodias que ficam guardadas em compartimentos indeltáveis da lembrança. E pra finalizar, que bom constatar que algo pode permanecer como antes sem perder os atributos que nos atraiu originariamente, assim como estas coisas, há personalidades que não mudam, ficam íntegras, estas sim, valem a pena envelhecer modernamente entre nós.

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