A higienização contra os pobres

Aqui em Ribeirão há um shopping com uma espécie de cercadinho simbólico para pobres. Funciona assim: você entra pelo supermercado e quando quer passar desse ao shopping, encontra uma mini-praça de alimentação. Essa praça funciona como um limite não declarado: a galera menos abastada acaba não passando dessa pracinha de alimentação e não adentra o shopping.

Ano passado, por conta da gripe H1n1, colocaram uns stands com álcool gel pra galera limpar as mãos. O gel ficava entre o supermercado e a pracinha de alimentação. Muito higiênico: você limpa as mãos antes de comer.  segue abaixo um desenho tosco de paint para ilustrar

Esse ano tiveram uma idéia brilhante para acentuar o cercadinho social e, de quebra, fizeram um declaração sobre a higiene dos pobres: os caras moveram os stands de gel para além da pracinha. Assim, se você for comer na pracinha não acha o tal gel por perto. Ele foi deslocado para um novo limite simbólico de “começo” do shopping, ou seja, depois da pracinha.

Ou seja, a higiene só é necessária mesmo para os que não ficam retidos no cercadinho simbólico: higiene não é coisa para pobre no shopping.

Isso me lembra a minha adolescência em Itajubá, em Minas. Na época tudo começava a acontecer na praça. E a praça, pública, era intensamente marcada por limites não ditos, mas relativamente respeitados: cada canto era de uma classe social e\ou etária. Todos os embates aconteciam (e eles aconteciam) quando as pessoas cruzavam os limites.

Agora não bastam os sentidos não ditos: as fronteiras estão sendo explicitadas. Isso é resultado de uma mudança: é que ultimamente, a galera do cercadinho não tem ficado constrangida em “invadir a praia”. Agora eles têm mais grana para gastar…

Eterno dilema: querem a grana mas não querem os seus portadores.

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Um comentário em “A higienização contra os pobres

  1. Hahaha Como eu lembro desse negócio de pracinhas em Minas. Ia para cidade da minha mãe, Miraí – cidade do Ataulfo Alves – e tinha esse negócio da Praça. Meninos sentido horário e as meninas no sentido anti-horário. A parte adotada da família ficava em uma parte da Praça com os nativos e o pessoal do morro, os primos que vinham de fora, se juntavam com os outros primos de fora e coincidentemente com os nativos ricos.
    A próposito, em Itajubá tinha os seres míticos? Encontrei recentemente uma comunidade dos ‘loucos’ de Miraí; aqueles figuras que sempre amedrontam as crianças, foram vários: Dona Édela, Arena, Seu Quirino, a Cris, os que eu lembro. A primeira uma velha doida que andava de chapéu pelas ruas mendigando só que falava que era de família abastada, reza a lenda que era mesmo, foi pro Rio de Janeiro (destino dos mineiros da zona da mata bem sucedidos) e voltou assim. Arena era uma velhinha que se você gritasse Arena ela saía com o guarda-chuva atrás de você pelas ruas. Seu Quirino, um negro, acho que filho de escravo viveu seus quase 100 anos e tem até hoje uma foto dele no bar da cidade. A Cris era um homossexual de cidade pequena que virou uma travesti pobre e ‘enlouqueceu’, era o pânico da garotada, diziam que tinha Aids e que cuspia nos outros na rua.
    Minas são muitas…

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