A Copa e a migração VII

Num dos outros posts, mencionei que o futebol e a circulação de pessoas também estavam entrelaçados como uma circulação de trabalhadores. Jogadores seguem a outros países para jogar. Não só os mais famosos, mas também jogadores de times de segunda, terceira divisão.

Pouca gente fala sobre isso, mas no caso brasileiro, o futebol é um grande incentivador da emigração internacional. Quando fiz pesquisa em Portugal com imigrantes brasileiros, conheci vários que foram jogadores de futebol em Portugal e que, depois de encerrada a carreira, continuaram no país como imigrantes.

Essa passagem, de jogador à imigrante, acontece muito frequentemente. E há casos onde essa passagem significa um segundo fenômeno importante no futebol: o caso dos filhos de ex-jogadores (no caso, brasileiros), que se tornam importantes jogadores no país onde o pai se fixou.

A seleção portuguesa é um caso exemplar: o jogador Bruno Alves, zagueiro titular, é filho do jogador brasileiro Washington (ex-zagueiro do Flamengo nas décadas de 60 e 70, que depois jogou no Espinhos em Portugal). O pai se casou com uma portuguesa e seguiu carreira como técnico de pequenos times em Portugal. Além de Bruno, Washington tem outro filho, Geraldo (também zagueiro, e que joga na Grécia).

Bruno cresceu em Portugal, fez carreira, defendeu o Porto e tornou-se figura importante da seleção portuguesa. Fruto da imigração… Assim como Giovanni Santos, atacante do México, filho de Zizinho (brasileiro que fez carreira inteira no México).

O futebol move as pessoas e cria outras conexões. A seleção portuguesa exemplifica a dinâmica intensa do futebol: conta com brasileiros, com filhos de brasileiros e com nascidos em outros países. Daniel Fernandes nasceu no Canadá, Danny nasceu na Venezuela e Rolando em Cabo Verde (assim como Nani, cortado por contusão).Portugal ainda contava com José Bisingwa, cortado por contusão, nascido no Congo Kinshasa, cujos país emigraram para Portugal.

Daniel Fernandes, filho de pai português e mãe tcheca, chegou a defender a seleção do Canadá em times sub17. Assim como Danny, é filho de emigrados portugueses (há grande colônia de portugueses nos dois países). É assim como se o filho de algum brasileiro, como os milhares que vivem fora do país, nascesse bom jogador de futebol e jogasse pelo Brasil, falando português com sotaque. Muito legitimamente, diria.

Os nascidos em Cabo-Verde, são fruto da emigração desse país (os pais emigraram para Portugal). Nesse caso, repete-se a assimetria que vimos no caso França/Argélia: Portugal consegue captar esses bons jogadores (cabo-verdeanos e de outras nações) para si, mesmo quando eles têm dupla nacionalidade. E consegue também captar para si descendentes de portugueses bons jogadores, desde que nascidos nesses países sem muita tradição no futebol (Canadá, Venezuela).

Mas quando o descendente português nasce em países como a França, a história é outra. Robert Pires, campeão do mundo pela frança em 1998, era filho de português com mãe espanhola… Kevin Gameiro, neto de portugueses e jovem artilheiro do Lorient (França), recusou convite para jogar pela seleção portuguesa.

A seleção portuguesa tem de tudo: um pouco de imigração colonial, um pouco de emigração portuguesa, imigração de futebolistas e jogadores naturalizados. É o caso dos três brasileiros: Liédson, Deco e Pepe. Deles falo num próximo post.

PS: para saber algo do fluxo de jogadores brasileiros numa perspectiva antropológica, recomendo os textos de Carmen Rial (como esse, por exemplo).

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