A copa e a migração (finale)

Para fechar a série da copa e da migração, com algum atraso devido à preguiça básica de julho.

Muita gente reclamou, em maior ou menor medida, da presença de brasileiros “natos” na seleção portuguesa. Em especial Liédson foi visto como um oportunista (assim como Marcos Senna já o fora na seleção espanhola, entre muitos outros): diferentemente de Deco e Pepe, que têm uma relação mais intensa com Portugal, pois iniciaram suas carreiras por lá, Liedson foi apenas tardiamente, depois de fazer nome no Flamengo e Corínthians.

Em Portugal desde 2003, apenas em 2009 requereu a nacionalidade Portuguesa. Muitos tomam isso como sinal de oportunismo: teria se naturalizado apenas para jogar na seleção portuguesa. O que não se diz é que a lei de nacionalidade portuguesa, reformulada em 2006, exige 6 anos de residência legal do estrangeiro, como critério inicial para naturalização. Ou seja,Liédson não poderia ter pedido a naturalização antes.

Como qualquer imigrante (embora um imigrante com muita grana), o desejo de naturalização e legalização definitiva (mesmo que com comparecimentos regulares à burocracia da imigração) é algo absolutamente legítimo. O cara trabalha num país estrangeiro, recebe melhores condições de vida do que tinha aqui, sofre de várias maneiras, mas em geral é grato ao país que o recebeu.

A naturalização é um momento nesse processo – muito dificil de atingir. Um momento de estreitamento, inclusive emocional: o cara passa a se sentir um pouco português, passa a se sentir parte daquele outro contexto. Porque seria diferentes para trabalhadores como Liédson? Porque ele não pode se sentir legitimamente português ao representar Portugal na seleção de futebol?

Os comentaristas deveriam tentar atualizar suas noções de identidade e a relação dessa com território. Parecem todos caras saídos do final do século XIX. Mas o mundo é diferente hoje. Só vi um cara falando diferente do mantra anti-naturalizações: foi o Telmo Zanini, do sporTV.

E esses jornalistas deveriam ter a percepção de como é importante, para uma legião de imigrantes brasileiros não-documentados em Portugal a presença de Liédson no time: a presença dele legitima politicamente o clamor por legalização dessa massa de gente que trabalha, constrói Portugal mas não consegue seus documentos, que possibilitariam um futuro pedido de legalização.

Liédson é imediatamente uma cara para essa população imigrante brasileira em Portugal. Espero que Liédson perceba isso, que a Casa do Brasil de Lisboa tente recorrer à imagem desse jogador como um instrumento político. Se um imigrante brasileiro naturalizado pode representar a seleção portuguesa, isso significa que Portugal não pode se furtar a escutar o clamor dessa gente toda.

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