Tiririca no poder

Olhem só: tem aí uma galera usando o Tiririca como emblema da cretinice da política brasileira, mas na verdade querem dizer da estupidez do eleitor que vota no cara.

Eu não vejo campanha eleitoral, não vi os programas do Tiririca, então falo apenas pela reação que vi na mídia (sempre alguém indignado com o fato da probabilidade do Tiririca se eleger).

Tudo bem, o cara é um palhaço (no sentido profissional da palavra). Ou um humorista, para colocá-lo numa classe mais ampla. Tem um quê de deboche. Mas deboche não é privilégio de palhaço na eleição: eleger o Sarney senador pelo Amapá não é um deboche?

O que eu acho estranho é a mídia esperneando contra a presença do tiririca (foto dele abaixo).

Tiririca no poder

Vamos lá: para ser eleito, um cara precisa de algo que poderíamos chamar de “coeficiente de reconhecimento público”, ou “capital de reconhecimento eleitoral”, se quisermos ser Bourdiesianos. Vamos chamar isso de “CRE”. O cara tem que ter CRE, mas isso não garante a eleição. Mas sem CRE, é difícil pra caramba. Daí as toneladas de dinheiro em promoção dos caras e também daí o embaralhamento entre política e propaganda (o político acaba virando um produto).

Ora, a mídia é quem dá CRE a torto e direito. Se um gajo fica em exposição na mídia, tem CRE potencial para virar político. Todo mundo sabe disso, a mídia sabe e abusa disso. Por isso é muito comum um trânsito entre a mídia e a política (digo entre pessoas expostas na mídia e a política).

Mas isso aí tem níveis, é claro. Se é um jornalista que entra na política, daí parece que está tudo bem. É um midiático “sério” eu diria. Ninguém mais lembra que o Hélio Costa apresentava reportagens sinistras no Fantástico. Temos aí uma jornalista quase se elegendo senadora no RS (Ana Amélia Lemos).

Mas não são só os jornalistas. Antigamente havia um trânsito entre literatos e a política, algo que ainda acontece se o cara é fodão a ponto de aparecer na mídia. O Gabriel Garcia Marques é o exemplo clássico. Seria o caso no Brasil se o João Ubaldo quisesse ser senador para continuar xingando o Lula. Um cara mais debochado que eu diria que é o caso do Sarney.

Há também um trânsito entre a política e as áreas menos “sérias” da mídia, se olharmos para o mundo da música, do futebol e das artes cênicas. Se o cara tiver uma trajetória artística de respeito, parece que não há problemas: O Gil, Zico e o Pelé como ministros, O Biro-Biro, Reinaldo, Marcelinho e Oscar como políticos. A Soninha como política (tá, agora foi deboche).Temos a ascensão fulminante de um pagodeiro para senador, no caso do Netinho. E ninguém critica o cara por ser pagodeiro.

E esse trânsito não é exclusividade nacional. É coisa da mídia no mundo inteiro. Ou não é verdade que o Arnold Schwarzenegger é governador da California? Quando é que esse trânsito entre mídia e política ficou menos evidente?

Schwarzenegger na política

Então, estamos combinados: a galera vir da mídia para a política é arroz com feijão. A pergunta agora é por que o Tiririca não pode? Por que ele é humorista e debochado? Então, consideremos: se o Jô Soares se candidatasse para o senado, a mídia consideraria um escracho? Ou o Chico Anysio? Ou até os branquelos do CQC, ou os humoristas da MTV? Acho que o problema não é ser humorista. Acho que no fim é porque ele é humorista e é muito “popular”, no sentido de povão. É nosso velho e conhecido preconceito de classe, que nos acostumamos a ver direcionado exclusivamente ao Lula nos últimos anos.

Não é à toa que o Lula parece um dos poucos que olha para a candidatura do Tiririca como legítima.

E por que não haveria de ser? Por que ele é um palhaço (no sentido profissional)? Mas pode jogador de basquete, ator, músico, jogador de futebol, participante de BBB?

Olha, a gente já teve o Severino Cavalcanti como presidente da Câmara dos deputados. Isso é melhor ou pior que o Tirica no poder?

E quem garante que o Tiririca será um mal deputado? Uma coisa que a gente pode deduzir do trânsito mídia-política é que o cara que usufrui do CRE pode ser um bom político ou não, aliás como qualquer outro e como tudo na vida.

E a mídia esperneando contra o Tiririca é a mídia esperneando contra a revelação de si mesma. É por que esse tipo de candidatura evidencia como o trânsito mídia-política acontece o tempo todo, e evidencia de uma forma radical.

Bom, eu não vou votar no Tiririca, voto no PSOL, porque quero uns malas de esquerda buzinando os petistas de reacionários, para fortalecer uma oposição à esquerda. Mas que ver a câmera com um palhaço profissional vai ser interessante, ah isso vai.

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6 comentários em “Tiririca no poder

  1. belo teto, seu chihuaha. Tem uma outra coisa aí nessa irritação com o Tiririca, que é ele fazer parte da coligação PT/PCdoB/PR etc – os votos dele vão ajudar a eleger uma porção de gente (e dificultar a vida de outra porção de gente).
    abs

  2. Muito bom, cara. Chegeui aqui via NPTO e já estou achando melhor do que lá… pena que você não tem tempo de escrever mais, tanto quanto aquele folgado!

    Aliás, me falaram que o Tiririca teria dito que não sabia o que fazia um deputado, que era para votar nele que quando ele descobrisse ele contava. É uma proposta melhor do que a da maioria dos candidatos e dos deputados atuais, que não contam nada para ninguém!

  3. muito bom o post mesmo. uma questão: anysio e jô são considerados ‘intelectuais’, de uma ponto de vista classe média, claro. E aí vale. aliás, o anysio foi casado com a zélia… e disso também ninguém reclamou. nem quando ela fez aquela caca toda.

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