Opções, loucuras particulares e o consumo

Eu tenho alguma dificuldade para escolher roupas, para além do habitual masculino. Deve ter algo a ver com meu ligeiro daltonismo.

A princípio eu resolvi o dilema pela simplificação: só comprava e usava camisetas Hering brancas. Depois passei a complexificar: inseri as cores no processo. Várias cores de camisetas básicas Hering (não consigo usar nada que porte mensagens que eu não escrevi).

Depois eu complexifiquei mais um pouquinho, comecei a usar as  camisetas Hering com duas listras nos ombros, em várias cores (as camisetas e as listras variam de cores).

É um processo de complexificação do consumo, estruturando minha apresentação para o mundo. Lembrei-me do Asilo Arkham, clássica história do Batman, quando ele encontra no Asilo o Duas Caras e conversa com a psiquiatra do bandido. Veja o que acontece:

(se não dá para ler, transcrevo:

Duas caras?” “Por favor Batman, nós realmente preferimos que você ochame Harvey Dent pelo verdadeiro nome”. “O que fizerem com ele?” “Fizemos?E le está sendo curado. Este lugar é um hospital, Batman, Caso tenha esquecido estamos aqui para tratar de pessoas”)

(“Na verdade nós conseguimos conter a obsessão de harvey com a polaridade. Tenho certeza que você conhece essa moeda de prata … riscada  num dos lados, perfeito do outro. Ele a usava para tomar suas decisões, como se de algum modo, isso representasse as metades contraditórias de sua personalidade. Nós trocamos o hábito da moeda por um dado. Isso lhe deu seis opções ao invés de só duas”)

(“Harvey se saiu tão bem com o dado que nós o convencemos a usar cartas de tarô. São 78 opções abertas para ele agora Batman. Já estamos pensando em passar pro I-ching. Em breve ele terá uma capacidade de julgamento completamente funcional, não mais baseada em conceitos absolutos de branco e preto“)

(“Só que agora Harvey não consegue tomar uma simples decisão, como ir ao banheiro, sem consultar as cartas. Me parece que vocês destruíram definitivamente a personalidade dele, doutora“)

Punk esse trecho, não? Claro, as camisetas são uma pálida versão do dilema “duas caras”, mas faz algum tempo eu descobri que a Hering não está mais produzindo as camisetas simples com as listras duplas… Entrei em pânico, procurando pelas remanescentes em qualquer loja que encontro. Como vou fazer sem as camisetas? Os caras criam um hábito depois querem tiram a minha moeda? Será que eles destruíram algo da minha personalidade, como a doutora do Duas Caras? Cadê o meu Batman, caralho!

Resumo da ópera: consumo atrelado às loucuras particulares (e todo mundo tem a sua, garanto) é potencialmente destrutivo.

 

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5 comentários em “Opções, loucuras particulares e o consumo

  1. Tem uma versão mais punk do q a do Batman para a mesma dicotomia. Popeye Doyle é viciado em chocolate. Ao ser capturado por uma quadrilha internacional de tráfico de drogas, é preso em um quarto. Viciam-no em heroína. Quando então passam a lhe dar novamente chocolate.
    Um abraço.
    kk.

  2. Curiosamente, eu me identifiquei com você (entenda-se “sua escrita’) Isso significa que vou passar aqui periodicamente para ler suas atualizações. Um texto leve e gostos, bem humorado. Gosto de ler coisas assim. Continue escrevendo.
    Vou agradecer à pessoa que indicou.
    Parabéns. Tá adicionado aqui na minha barra de favoritos.

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