Crises individuais

Sobre a aparente contradição prática:

Dimitri, do alto de seus 5 anos, me chama para terminar de limpá-lo no banheiro. Está naquela fase de transição, para aprender a se limpar sozinho. É uma fase difícil, quem é pai/mãe sabe bem.

É difícil por vários motivos, mas no caso do Dimi, principalmente por perder uma moeda de troca valiosa: a eleição do limpador.

Cotidianamente ele faz homenagens públicas, escolhendo quem é que deve limpá-lo (ou o pai ou a mãe). É um pequeno poder do qual ele reluta em abrir mão. Agora essa fase ficou para o momento do arrematar da limpeza.

Meio mal-humorado, na ultima vez em que fui eleito, reclamei que ele não estava se limpando a contento. Como é que vai ser na escola quando não tiver ninguém para ajudar?, perguntei.

Resposta imediata e atravessada: “Você não sabe nada da minha vida, pai”.

Ãnhnnnnnnn? Engasguei! Como???

Penso com meus botões: Estou aqui limpando a bunda do moleque e ele se achando tão independente? (estava mal-humorado).

Pareceu uma contradição: quando minha ação ainda é necessária nesses momentos tão “individuais” o Dimi vem me falar de individualidade?

Mas logo percebi a dura realidade dos pais: os filhos são mesmo pessoas de quem a gente “não sabe nada”, mesmo quando limpamos suas bundas. Eles são pessoas com suas vidas intelectuais e emocionais só deles e é duro admitir. E já as têm desde sempre, mas a gente não quer admitir.

Moral da história: é preciso estar na merda para descobrir verdades que insistimos em ignorar.

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