O Futuro do passado

Ontem (ou anteontem) li um texto do Clóvis Rossi na Folha. O cara falava que a situação portuguesa era uma aviso para nosotros: “nós somos vocês amanhã”.

Por quê? Bem, por causa de toda a treta fiscalista. Os portugueses gastaram demais, sabe como é, agora têm que pagar com ajustes drásticos.

É o consenso neoliberal na veia, mesmo depois da crise de 2008 e da próxima (2012?).

Mas é engraçado porque ela inverte completamente a ordem das coisas, ou a coisa da desordem, se preferir:

No caso, troca passados e futuros.

Portugal está na situação em que estávamos na década de 80: sem crédito e sujeitado aos desmandos da banca internacional (no caso, FMI e quetais).

Lá, agora, como aqui, no final do século passado, há uma elite política capacho, que só faz abaixar a cabeça, muito temerosa, aos gritos de “ajuste, ajuste e ajuste”.

O resultado aqui, nós sabemos: duas décadas perdidas.

O resultado lá nós também sabemos: décadas de recessão.

O que leva os países a esse cândido passeio para o abismo? Como é possível que as pessoas simplesmente não abram os olhos?

Em Portugal, cortaram salários dos funcionários públicos. A recessão atingiu o setor de serviços em cheio: desemprego se alastrando.

Estima-se que o arrocho salarial vai levar a uma queda nos gastos de fim de ano, levando desemprego ao chão de fábrica e ao comércio.

Começo do ano com 15 % de desemprego, entrando na espiral do mal: desemprego gerando mais desemprego.

E os políticos apenas sabem dizer: ajuste, ajuste ajuste.

A hegemonia (no sentido gramsciano) neoliberal, no caso dos países pobres da Europa, é acentuada pela eurocentricidade: os caras acham o máximo estar na comunidade europeia. Isso não era um problema, mas agora é.

Porque esse era o momento em que os gregos e portugueses deveriam estar negociando uma saída da zona do euro (a moeda). É a única saída que não significa 20 anos perdidos à frente. Mas o fetiche da “europa” não permite.

É a hegemonia de um pensamento ainda evolucionista: todos querem ser como a Europa, como será que se pode deixar de ser Europa? Alemanha e França capitalizam tudo que essa hegemonia pode trazer: estão a impor um ajuste aos países periféricos com a única intenção de safarem seus sistemas bancários. Em nome da Europa, que se detone a Grécia, Portugal, Irlanda e quem vier. Engraçado, Europa é uma dessas palavras Dumontianas: Agora ela significa só Alemanha e França (na hora dos lucros). Na hora da cobrança, de pagar a conta, todo mundo é Europa. Palavrinha escorregadia essa.

O que o Clovis Rossi e muitos conservadores por aí sabem é que o exemplo realmente importante para Portugal (e Grécia) é a Argentina de dez anos atrás: pau nos credores, desvalorização, inferno em um ano, depois retomada vigorosa.

Só que não é pra falar muito alto, que os portugueses e gregos podem ouvir. Então reafirma-se a estupidez neoliberal exatamente com o seu contrário.

Nós não seremos o Portugal de hoje. E Portugal deveria escolher ser a Argentina de dez anos atrás, não o Brasil da década de 80.

Acima
Foto do Filme que Portugal e o neoliberalês
assistem no momento
Anúncios

3 comentários em “O Futuro do passado

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s