Antropologia no jardim da infância

Neste ano, Dimitri, meu filho mais novo completou o ensino infantil, e parte ano que vem para o fundamental.

Tivemos formatura e tudo, foi bacana. Como presente aos pais, a escolinha entregou uma apostila com transcrições de alguns debates entre as crianças, após algumas histórias terem sido contadas.

É o máximo, mas o que me entrigou foi uma discussão sobre parentesco entabulada por Dimitri e uma amiguinha:

Eu tenho saudade do pai da minha mãe” (amiguinha do Dimitri)

“Ele não é seu avô?” (Dimitri)

“É, e também é o pai  da minha mãe” (amiguinha do Dimitri)

“Ai meu Deus! Todo pai da mãe é avô.(Dimitri).

Engraçado, não? É uma discussão sobre terminologia, que esconde um grande debate, apesar da simplicidade.

E não, o Dimitri não está certo! (dependendo do ponto de vista, claro).

O avô não é o mesmo que o pai da mãe. E a diferença entre esses dois processos de classificação foi ignorado durante muito tempo.

Acontece que por acaso estou relendo umas coisas do Schneider (antropólogo americano fodão), e me deparei justamente com essa diferença.

Schneider produziu uma tese sobre parentesco em Yap (ilha da micronésia), defendendo uma descendência dupla (coisa que renegaria tempos depois). Isso era um problema lógico por vários motivos, principalmente porque Murdock (outro antropólogo fodão), que estava na banca do cara, não acreditava naquilo.

Schneider ficou pistola, pois a flexibilidade no uso dos termos de parentesco em Yap era evidente para ele, mas não tinha como convencer Murdock (a história é bem mais complicada, mas ficamos por aqui).

Daí ele começou a pensar em como provar que o uso dos termos de parentesco era muito mais flexível do que a teoria queria acreditar (isso seria uma crítica dura aos linguistas e radicais do parentesco). Voltou suas armas para o parentesco americano, pois todo mundo (no caso, eram todos americanos) saberia do que ele estava falando. E foi lá provar como os termos de parentesco eram muito mais flexíveis e essa flexibilidade levava em conta as relações que as pessoas estabeleciam entre si. Um tio poderia ser um “tio” ou simplesmente um “filha da puta do caralho”. E vejam, falamos de duas formas de classificação para a mesma posição estrutural.

Dimitri e a amiguinha reproduziram o mesmo debate, no jardim de infância. Avô, pro Dimitri, é uma categoria única e que encompassa todos pais das mães e dos pais. É que ele tem dois avôs e uma relação intensa com um deles, pelo menos, e bacana com outro. Avô é uma categoria que não precisa de um termo de mediação (pai da mãe). Mas quando a coisa vira para uma das avós, ele usa justamente o termo de mediação. Na mesma apostila, em outro momento, ele diz:

“Eu acho que a mãe da minha mãe morreu, porque eu nunca vi ela” (Dimitri)

Aqui a mediação (mãe da mãe) é um índice de distância (ele praticamente não a conhece).

Ou seja, mãe da mãe e avó não são a mesma coisa: uma é distante, a outra é presente. Seria o caso se ele falasse da outra avó, com quem se relaciona bastante.

Falam daquilo que Schneider falava: os termos dependem das relações, o que dificulta qualquer álgebra do parentesco. Isso aí acabou numa crítica bem intensa à teoria do parentesco, por um lado, mas também num impulso a uma nova idéia de parentesco, onde as relações importam mais que a álgebra.

Enfim, Dimitri fez o papel do Murdock lá no seu debate com a amiguinha!!

Temos a antropologia no jardim da infância.

debate de antropologia no jardim de infância
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2 comentários em “Antropologia no jardim da infância

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