A pedagogia da suspeita

Há muitas formas de uma opressão se consolidar, e uma delas é nas salas de aula.

Sou professor e continuo achando que alunos podem aprender o conteúdo das minhas disciplinas sem a minha ajuda. Tem gente que faz melhor estudando em casa que vendo aulas. Claro que eu posso facilitar, clarear algumas coisas, mas não sou indispensável.

Mas o mundo burocrático impõe regras e lidamos com elas de muitas maneiras. No entanto, agora se abateu sobre o programa de pós do qual faço parte uma paranóia de desconfiança. É assim: um aluno entregou um trabalho plagiado para o professor x, que se sentiu profundamente enganado. Ok. Aí o professor x demanda do programa alguma proteção contra essas práticas. E o programa é rápido em exigir um controle muito mais efetivo da presença dos alunos em sala da aula. A idéia é que se o aluno participa da aula, o professor pode saber se o trabalho final é plágio ou não.

Mas em troca recebemos a pedadogia da suspeita: todos são suspeitos, até que se prove o contrário. E a prova ao contrário é a presença. Isso é um erro em muitos sentidos: um aluno “presente” pode plagiar, um aluno “ausente” pode não plagiar, um aluno “presente” pode fazer um trabalho ruim, um aluno “ausente” pode fazer um trabalho espetacular. A lógica é associar a presença com “bom” e ausência com “ruim”. Pra mim, que tenho estudado imigração e famílias imigrantes, que têm membros das suas famílias distantes por muito tempo, é impossível não suspeitar dessa lógica.

Mas a lógica final é desconfiar de todo mundo. Por isso é possível perguntar: “Se o aluno faltou muito, como você vai saber que ele não falsificou o trabalho?” (sim, eu ouvi isso). A resposta é simples: eu não sei. Como também não sei se o aluno “presente” falsificou. Eu simplesmente não sou policial, detetive, é não é minha obrigação saber se o trabalho é falso ou não. Basicamente porque eu não suspeito do aluno e não vou aceitar um clima geral de suspeita porque uns ou outros falsificaram. A questão real é que se  eu devo me tornar um policial em busca da falsidade, está instaurado um clima opressivo de policiamento e vigília. É isso o que queremos fazer com os alunos?

E claro, o programa pode me obrigar a oferecer documentos (como as listas de presença), e eu vou ter que obedecer. E vou. Mas ninguém vai me obrigar a ceder à paranóia opressiva da desconfiança. Vou continuar achando que a presença do aluno é relativamente importante (ele pode ser muito bom e dominar o conteúdo autoditatamente, ou pode precisar da minha ajuda em sala de aula). O engraçado (e trágico) é que alguns consideram que eu não ceder à lógica da paranóia é um ato anti-democrático, já que todo o coletivo docente decidiu que é preciso suspeitar. É quando a democracia serve à opressão. Mas o documento exigido é uma coisa, a minha concepção do que é a relação aluno/docente é outra. Posso dizer, como disse, que ofereço ao programa os documentos exigidos, mas não entrego minha resistência à pedagogia da suspeita.

Quando eu fazia a minha graduação, lá no começo dos anos 90, me meti a fazer uma disciplina muito difícil, que não era para alunos no meu momento do curso. Era difícil pra caramba, e ao mesmo tempo, brilhante. Nunca estudei tanto apenas para acompanhar o que se dizia (eu não entendia direito). E fiquei mudo, pois era muito difícil acompanhar o curso. Aí a professora me mandou fazer um seminário. Ok, fui preparar (a prece e o sacrifício, do Mauss). No dia do seminário, pela manhã, fui tomar meu café na cantina e sentei-me próximo à professora, que conversava com uma sua orientanda. Sem querer escutei a conversa e descobri que a tal professora havia atribuído seminários aos maus alunos. Cara, fiquei fulo da vida. O meu silêncio significava ser mau aluno. E não era mesmo o caso. Fui à sala da professora e “expus” o meu descontentamento. Não teve jeito: aluno quieto era aluno ruim. No início da aula, ela “democraticamente” me deu a chance de não apresentar o seminário. Eu, pusto, aceitei a chance e me recusei a dar o seminário.

Essa historinha é pra dizer que eu já não aceitava a pedagogia da suspeita com 19 anos, e não vou aceitá-la agora com quase quarenta. E como disse aos colegas, talvez fosse o caso de colocar uma câmera em cada sala de aula e vigiar quem vem ou não, o que eu falo ou não, quem participa ou não (como fazem algumas particulares). Porque esse é o caminho natural da desconfiança: o controle orwelliano.

pedagogia da suspeita

Essa história aí me incomodou tanto que tive um sonho mega-libertário (do meu ponto de vista): sonhei que jogava futebol com meus meninos (e uma criançada) e de repente todo mundo começou a inventar regras diferentes… Estava num autêntico calvinball!!

Yeahhhhhh
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2 comentários em “A pedagogia da suspeita

  1. “A idéia é que se o aluno participa da aula, o professor pode saber se o trabalho final é plágio ou não.”

    Eu ainda não consigo aceitar que um ser humano racional consiga acreditar nisso. Caramba, a conseqüência claramente não decorre da premissa!!

    Tá bom, eu sei, estou exigindo demais.

  2. PelamordeDeus!
    O cara tem que saber se vender, independente da qualidade do que ele pensa, é isso?
    Mas então ser tímido é sinal de burrice ou desonestidade?
    Se aparecer e parecer bom aluno, é bom aluno, se não parecer, é picareta. E um professor com sala cheia sabe, de soslaio , pela cara do cara, como ele se comporta fora da sala.
    É demais.
    Mantenha-se na resistência.
    Sempre tive um pouco de banzo de não estar mais na universidade, mas essas e outras me deixam feliz de sersó um burocrata sob controle hierárquico.

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