Caixa de Pandora e a antropologia

Alguns anos atrás um artigo do Hélio Jaquaribe na Folha defendia o ponto de vista militar-conservador-ruralista de que índio tem muita terra. Ia um pouco além, dizendo que o Estado não poderia se curvar a quem não tinha saído da idade da pedra (tinha que educar, transformar, evoluir). Em vez de terra, era o caso de civilizar. Esse ponto de vista reacionário é tão comum que nem vale aqui criticá-lo. Muita gente já fez isso, com muito mais propriedade. Procure aí entrevistas da Manuela Carneiro da Cunha ou do Eduardo Viveiros de Castro.

No site da Veja de hoje encontramos mais um reafirmação desse ponto de vista. Bem quando um mobilização on-line sem precedentes forçou o governo a olhar para os Guarani-Kaiowá, a revista lança mais um tijolo desse pensamento criminoso: o problema é que os índios continuam sendo silvícolas e pior de tudo, tem aí uns antropólogos medievais que gostariam deles continuando a ser silvícolas. Desnecessário contestar essa baboseira que, entre muitas idiotices, supõe que os índios são tutelados pelos antropólogos (a vontade de nada é dos índios, é sempre de alguém bem branco por trás).

Esse argumento não é apenas tosco, é malicioso, pois prepara o próximo argumento de que se os índios querem continuar sendo índios é por culpa dos antropólogos medievais que os querem manter na escuridão da selvageria. Ou seja, pode-se defender os índios deles mesmos culpando os antropólogos. Aqui é uma disputa pela palavra. O jornalista pretende estar falando pelos índios, enganados pelos antropólogos. É preciso combater esse ciclo argumentativo, todos sabemos.

Mas o que me interessa pensar aqui é porque isso agora. A resposta é meio óbvia, mas sempre é bom relembrar: grandes interesses do capital gostariam de ver os índios longe de suas terras (como por exemplos mineradoras interessadas no território yanomami). Que a veja faça o jogo desses interesses é absolutamente normal.

O que há de diferente nesse momento é um governo que se diz de esquerda e atropela as populações indígenas em nome do desenvolvimento. Como já disse antes, o desenvolvimento desumano de Dilma é extremamente preocupante (aqui). Temos um governo que lida com os índios na mesma perspectiva da direita-conservadora-reacionária: “civilizando-os”. O desenvolvimentismo desse governo é de uma incrível ressonância com as forças conservadoras… Abriu-se a caixa de pandora que está dando todo tipo de justificativa para o ruralismo avançar sobre as populações indígenas: tem gente morrendo por causa disso.

Por outro lado, na mesma semana que a veja coloca uma capa querendo caçar o fantasma do Lula num depoimento espírita do Marcos Valério (edição de 2288), lança um ataque aos indígenas e aos antropólogos. Aproximar-se por um lado das temáticas conservadoras não garante nenhum armistício para o PT. E isso acontece justamente como uma reação à movimentação online que pressionou o governo a dar alguma resposta à questão indígena que fosse positiva. Essa movimentação online (o cyberativismo feicebuquiano) é um marco, por conseguir dar alguma visibilidade ao grande drama das populações indígenas num governo desenvolvimentista como esse.

Mas justo nesse momento, a veja saca suas armas: para aplacar e se contrapor ao cyberativismo que deu resultados. Enfim, somos todos guarani-kaiowá.

Acima imagem do protesto dos Guarani-Kaiowá em frente ao congresso, de um simbolismo evidente.

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