Occupy Antropologia

Depois de muito tempo volto a escrever (estive fazendo uns livros, coordeno um programa de pós, está meio puxado).

Volto por conta de um assunto que tem me despertando a atenção e pode ser do interesse de alguém, principalmente antropólogos.

O assunto é a crise econômica e seus impactos na antropologia americana. É um olhar de fora, muito de longe, mas ainda assim é alguma coisa.

Desde 2008, com a crise econômica, as universidades americanas passam por um grande crise. A quantidade de professores com o tenure (que é o contrato de estabilidade no emprego, com salários condizentes) diminuiu. Segundo essa reportagem da aljazeera, apenas 24% do docentes na universidade americana possuem o tenure. Os demais são professores adjuntos, cuja situação laboral é de total precaridade. Muito pior que professores substitutos nas federais brasileiras: salários ridículos, horas de trabalho a mais, discriminados pelos tenure-professors, etc. Uma descrição dessa situação pode ser vista aqui.

Em termos gerais, temos uma precarização radical do trabalho dos professores universitários norte-americanos. Mas o que isso tem a ver com a antropologia? Bom, essa situação tem duas implicações relevantes (entre muitas outras). Primeiro é que ela gera entre os estudantes de pós uma grande insatisfação (que depois foi alimentar o movimento occupy wall street), pois percebem que a porta está fechada para eles, e o sistema não está mais funcionando (está oprimindo). Essa insatisfação tem implicações políticas, como é óbvio (veja isso no facebook). Mas tem consequências acadêmicas também (o segunda implicação): de repente, o capital virou o grande assunto antropológico. Tenho visto, como nunca tinha antes, muitos artigos e trabalhos sobre o grande capital em mil variações: etnografias de empresas de petróleo, de movimentos de resistência, de bancos de financiamento etc. Títulos como “Ethnography in Late Industrialism” (cultural anthropology), “Life Is Not for Sale!”: Confronting Free Trade and Intellectual Property in Costa Rica (American Anthropologist),  “Offshore work: Oil, modularity, and the how of capitalism in Equatorial Guinea” (American ethnologist), “Infuriated with the Infuriated? Blaming Tactics and Discontent about the Greek Financial Crisis” (Current Anthropology), Engaged Anthropology in 2011: A View from the Antipodes in a Turbulent Era (American Anthropologist). A lista poderia continuar indefinidamente e todos esses artigos estão nas duas últimas edições dessas revistas (e o mesmo tema parece importante também no JRAI, do outro lado do atlântico, basta ver o último número).

A agenda de pesquisa antropológica tem sido muito influenciada pela crise, como se vê. E o mote dessa agenda é um mote “occupy”, contra o 1% que domina o mundo (e as universidades). É como se a antropologia manifestasse seus inconformismos produzindo etnografias do capital. O que acho interessante é que essa agenda veio com força mesmo depois da crise, quando o sistema começou a falhar para os americanos. Isso trouxe de volta uma onda de ativismo antropológico e talvez reviva uma certa antropologia marxista pós-boas (com suas boas e nem tão boas versões). Não que o capital não tenha sido objeto da antropologia, mas agora é uma espécie de necessidade.

occupy

 

Há outras implicações desse cenário e vou tentar escrever mais um pouco (e aos poucos).

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