Débito na antropologia

Nos dois posts anteriores, falei da crise econômica e seus efeitos na antropologia americana. Basicamente um grande e renovado interesse em estudar o capital e suas diversas modalidades.

Faltou falar agora do débito. Também já falei de como os estudantes americanos estão mergulhados em dívidas, mas isso não acontece apenas na America: veja essa notícia sobre o calote nas universidades no Reino Unido.

Não é por menos que o hit antropológico do momento é justamente um trabalho sobre o débito: “Debt: The First 5,000 Years”, de David Graeber. Não li o livro ainda, mas você pode achar aqui uma resenha interessante (e aqui também). [a propósito, uma busca no 4shared te leva ao livro, que tem circulado entre os radicais] Graeber é um anarquista, tentando reviver uma chama anti-estatista na antropologia. E não tem sido muito difícil conseguir, dado a falência progressiva das políticas de bem estar social dos Estados “desenvolvidos”. Graeber foi uma figura importante no movimento Occupy, principalmente por defender que o movimento não tivesse lideranças no modelo tradicional da esquerda. A idéia era e é a criação de movimentos horizontais, sem nenhum espaço para uma vanguarda revolucionária.

Graeber é visto e se vê como um ativista radical, e muitos estudantes tem ligado a carreira de Graeber à crise acadêmica americana: o nosso radical não conseguiu se estabelecer na universidade americana. Yale recusou-se a dar-lhe o tenure. Exilado da vida acadêmica americana, Graeber partiu para a Inglaterra, onde trabalha na London School of Economics and Political Science.

Muitos estudantes olham para um autor que tem um reconhecimento internacional pelo seu trabalho e ainda assim não consegue o tenure e pensam que não há mais espaço na academia, outros pensam que sendo um radical, não há mesmo espaço. Outros acham as duas coisas. Aqui temos uma discussão sobre isso.

Vale destacar que o débito (muitos diriam a dádiva) entra mesmo na agenda quando o sistema econômico começa a pipocar e as pessoas sentem na pele seus efeitos: débitos estudantis, sem mercado de trabalho e exílio para os radicais.

Daqui de longe, em terras brasílicas, alguns efeitos dessa crise se fazem sentir: pós-docs estrangeiros aumentando, alunos de doutorado estrangeiros aumentando, candidatos estrangeiros em concursos aumentando (falo aqui de estrangeiros vindos dos países desenvolvidos). Outro lado é um súbito interesse em projetos internacionais com brasileiros (com grana de instituições brasileiras, é claro).

Claro, há outras consequências da crise, mas falo alguma coisa sobre isso em futuros posts.

O que me interessa mesmo é que o caminho do radicalismo é o anarquismo, o que me parece muito lógico: as demais políticas de revolução de esquerda acabaram sempre em governos autocráticos, ou em governos que lentamente tornam-se reacionários (como temos visto na união do PT com os ruralistas do PSD).

A antropologia do débito é anti-estatal.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s