Fenótipos e fantasmas

Dei de cara com essa reportagem, que todos deveriam ler com cuidado, pois é incrível: descendentes de escravos negros dos índios cherokee (não, não é nome de carro) lutam para serem reconhecidos como cherokee. Lutam contra os próprios cherokee, diga-se (mas também com apoio de cherokee).

A história é pra ser lida e nos leva a pensar sobre o que são os fenótipos e as classificações raciais/étnicas. Quem é índio ou não é a questão e os americanos estão fazendo essa pergunta desde o século XIX. Hoje, ser indígena nos EUA significa obter alguns benefícios do Estado e muitos condenam os negros em questão por estarem apenas atrás desses benefícios (como aliás criticaram muitos dos cherokee quase brancos que se decidiram índios ao longo do século XX). Não há resposta fácil para pergunta e só podemos nos contentar com a auto-definição, não há saídas. E se você acredita que índios devem se parecer com índios, está num terreno pantanoso. Essa reportagem mostra como o fenótipo é só um detalhe.

Ano passado fiz uma pequena fala na 1º semana de antropologia da UFSCar sobre esse tema. Coloco ela abaixo, para explicar porque o fenótipo é um detalhe (o que importa são as classificações). Resultado: é índio quem é. E não conheço quem pode dizer que x ou y não é o que diz ser (mesmo que ele esteja mentido – é o preço que devemos pagar).

 

 

 

Fenótipo e raça: dois exemplos de fantasias angustiantes.

Igor José de Renó Machado

Apresentado na 1º seminário de antropologia da Ufscar 19/05/2012

 

Essa fala surge do título. Na verdade, o título saiu meio sob a pressão dos alunos e, em reação ao título da fala do Omar (sem saber o conteúdo da fala) e, em resposta, imaginei esse título. Agora tenho que inventar uma fala para o título. Para isso vou usar dois exemplos, retirados de diferentes experiências de pesquisa, uma propriamente minha e outra uma experiência que vi acontecer com meus alunos não japoneses que estudam japoneses.

Os dois exemplos servem para pensar um pouco sobre a relação entre fenótipo e raça, indicando basicamente o que quero mostrar como uma certa irrelevância do fenótipo na constituição de classificações, não porque ele não “exista”, mas porque mesmo quando não existe, deve existir (mas chegaremos a isso em breve). Primeiro, vou falar da minha pesquisa entre os brasileiros no Porto, lá nos idos de 2000. Depois falarei sobre meus alunos não-japoneses em suas pesquisas japonesas nos últimos 2 anos.

A idéia de fantasias angustiantes é mais uma licença literária que um fato em si, mas mostrarei que há algo de angustiante nessas fantasias de classificação social e que essa angústia se deve à irrelevância do olhar ou do olhado na determinação de classificações. Vamos, então, ao primeiro exemplo, sobre o qual me deterei mais longamente, pois é mais difícil explicar.

Ele começa de uma pergunta: Em Portugal, quando um branco vira mulato? Ou em Portugal, quando um negro vira mulato? Ou ainda quando um negro vira Mulato, ou qualquer dessas variações. A resposta é complexa, mas podemos dizer que isso acontece muito frequentemente. Para explicar, partamos do que chamei de uma hierarquia de alteridades portuguesas: Quando estive lá, experimentei uma ordem de classificação pós, ou retro imperial: portugueses, brasileiros, africanos (com variações entre esses – desde cabo-verdianos até guineenses). Essa hierarquia era também uma hierarquia de preconceito e estava inscrita legalmente nas legislações de migração (mas essa é outra história).

A essa hierarquia retro-pós-imperial estava ligada uma escala cromática, fenotípica (e imaginária): brancos, mulatos, pretos. Esse esquema simples funcionava implacavelmente, à revelia da evidência visual cromática fenotípica. Era assim que Fumaça, um dos meus dois grandes amigos informantes e cúmplices, loiro de 1,95m, nascido em santa Catarina, churrasqueiro profissional acabava invariavelmente sendo “visto” como mulato. Ou que outro amigo, o Bolinha, negro cromaticamente dos mais escuros, virava também mulato. Pode parecer estranho, mas contemos uma historinha para explicar:

Imagine um bar português, grande e com muitos funcionários. Imagine uma escala de trabalhos relacionados ao bar: temos os funcionários de dentro da cozinha, nunca vistos, temos os atendentes de mesa, sempre vistos, e temos os seguranças que devem ser vistos como ameaças (e também temos músicos). Essa escala é uma escala de dificuldade e salarial: trabalhadores da cozinha têm trabalho mais pesado e ganham menos, seguranças ganham um pouco mais e os atendentes e músicos ganham melhor, principalmente por causa das gorjetas.

Essa escala era, em 2000, também uma escala de cor: os negros ficavam na cozinha e os especialmente fortes como seguranças e os brasileiros como garçons. Assim, africanos ficavam na cozinha e na porrada, e os brasileiros no atendimento. As coisas operavam deste modo, de forma sistemática. Mas nem todos os brasileiros eram mulatos, nem todos os africanos eram pretos. Mas invariavelmente, o africano não conseguia servir a mesa, onde poderia ganhar um pouco mais de dinheiro.

Assim, era comum encontrar africanos que tentavam se passar por brasileiros, o que era possível falsificando o sotaque… Se falasse como brasileiros, seriam brasileiros e seriam, portanto, mulatos, podendo atender as mesas. Da mesma forma, um brasileiro branco dentista, de classe média, não media esforços para falar como um português e ser visto como branco e não como um mulato.

Temos então que naquele contexto o fenótipo era contingente à própria classificação: ele não causava a classificação (é preto quem é preto), mas era causada pela classificação (era preto quem era africano). Aqui quero demonstrar como a cor, o fenótipo, a variação cromática era simplesmente ignorada e a determinação da cor era dada pela classificação pós-proto-colonial. O disparador legítimo da classificação cromática era o sotaque. Portanto tínhamos uma classificação auditiva, criadora do fenótipo.

Não é apenas que você escutava um preto, um branco ou um mulato, era que quando você escutava um mulato, ele passava a ser um mulato e pronto. O seu fenótipo era criado, portanto, à revelia da cromaticidade da sua pele. O único contorno era a enganação auditiva, que poderia transformar a sua cor. Assim, alguém cromaticamente branco virava mulato ou preto, alguém cromaticamente preto virava mulato, etc. Claro que havia outros índices auditivos de criação (fantasias) de fenótipo, e uma delas era a linguagem do gueto de descendentes de 2ª, 3ª geração de africanos em bairros de lata, mas essa é outra história.

Assim, para fechar esse exemplo, quero indicar que o fenótipo não é um dado. É construído, e a sua construção varia amplamente, de forma que aquilo que o português via como mulato, eu poderia ver como branco, negro. O olhar não é classificador em si, o que classifica é um regime moral-imperial-preconceituoso, todo o resto (inclusive o olhar) se adequa a esse regime.

Passemos para outra fantasia angustiante, um tanto menos, mas ainda angustiante. Desde uns anos para cá aconteceu de um conjunto de alunos se interessarem por assuntos japoneses e se dedicarem a eles sob minha orientação. Um conjunto de trabalhos foi publicado, algumas idéias foram levantadas e uma delas serve de exemplo aqui nessa fala. Uso uma historinha para acessá-la.

Quando fazia uma entrevista com um velho sensei de Kendô, Gil Vicente Lourenção, recebeu de seu professor, que o acompanhava uma definição para os japoneses que não levavam muito a sério um certo tipo de japonesidade mais ortodoxa: Eram como a banana: amarelos por fora e brancos por dentro. Já o Gil, ele próprio, era um exemplo contrário: era completamente amarelo por dentro.

Vemos aqui uma inversão entre fenótipo e essência, como se fosse possível um descasamento entre eles, operando em benefício de alguns e em prejuízo de outros.

Como essa japonesidade articulada pelo kendo e sua prática evocava constantemente uma moral espiritual para o seu ordenamento (era preciso possuir um espírito japonês), se se comprovasse que um não-descendente como Gil possuísse essa alma amarela, ele seria um japonês (mesmo que na casca errada), seria um japonês naquele contexto.

E um japonês sem alma amarela é apenas um branco, um falso fenótipo enganando os incautos. Ou seja, aqui o fenótipo é diluído no espírito e o resultado é que quem é ou não japonês não depende do fenótipo, mas da expressão moral desse espírito japonês: essa expressão se dá no comportamento: o comedimento, a etiqueta, o cuidado com as regras de polidez do kendo, a postura de humildade, uma série de registros gestuais adequados, a construção de um corpo japonês, feito pela prática, que era nada mais que a expressão de um espírito. Assim, Gil virou japonês naquele contexto, apesar da ausência do fenótipo. Essa experiência era também uma experiência angustiante, pois só funcionava exatamente naquele contexto, e arrisco a dizer, para tristeza do Gil (talvez seja por isso a feitura das tatuagens em japonês nas pernas, sei lá).

Mas não é só a experiência do Gil no Kendo que o fez japonês. Outros circuitos, práticas e morais também japonizam: Victor Hugo aqui, se vocês não sabem, é completamente japonês. Seu envolvimento com as estruturas associativas japonesas em São Carlos, com as estruturas acadêmicas dedicadas ao estudo dos imigrantes e descendentes no Brasil e Japão, sua participação sistemática em associações acadêmicas, a circulação entre os estudiosos, tudo isso fez dele um japonês. Não é por menos que quando o cônsul japonês veio a São Carlos para uma visita ao kaikan, Victor Hugo foi o convidado pelo kaikan a recebê-lo…

Não é por menos que Victor Hugo foi para o Japão como bolsista do Governo Japonês e Gil se encontra lá nesse momento: é como se as instituições burocráticas japonesas buscassem os japoneses para dar-lhes as bolsas (eles só as conseguiram porque eram e são japoneses, apesar da “falha” no fenótipo). Para aqueles que duvidam desse processo e estão aqui, basta usarem o meu aluno Miojo (Tiago Lins) como exemplo etnográfico. Ele começa a estudar coisas japonesas comigo e nosso grupo de pesquisa. Daqui uns anos terá se transformado em Japonês… Encerro aqui os exemplos.

O que podemos ver nesses dois conjuntos de casos é uma dúvida sobre a certeza do fenótipo como marcador de classificação, não para dizermos candidamente que o fenótipo não importa, ou, hipocritamente, que ninguém sabe quem é o quê porque o fenótipo não é uma certeza. É antes justamente o contrário: o fenótipo importa tanto que tudo deve sucumbir a ele, inclusive as evidências cromáticas. Em vários casos são criadas as condições para essa sobredeterminação do olhar.

Quero indicar que o olhar pode ser contingente, não a classificação. Essa continua operando como que magicamente, mobilizando outros sentidos, outras lógicas para continuar a classificar. Talvez isso não passe tão longe de vocês, e contarei uma última história simples e banal, mas significativa: Quando eu estudava no ifch, um amigo, um cara bem apresentável e muito, muito branco, começou a namorar uma estudante negra e muito, muito bonita. Mas algo aconteceu quando a relação veio a publico: em vários lugares e esquinas do ifch eu ouvi que ele era bonito demais para ela, e logo passei a ouvir que ela era feia demais para ele. Aquela relação fez dele um cara mais bonito e dela uma mulher mais feia.

É uma história comum, que me lembra um pouco os diálogos nos filmes do Spike Lee, mas ela demonstra com o olhar é subordinado à classificação. Isso quer dizer que uma discriminação nasce a cada momento a partir de seus critérios (e nós sabemos quais são esses critérios aqui) e esse nascimento é capaz de modificar o que vemos com nossos próprios olhos. A nossa certeza, encarando esses fatos, é que a discriminação existe, e desestabiliza nossos olhares, sensações e percepções. Não enfrentá-la por medo da semântica é que é uma cegueira.

 

 

 

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