Sejamos francos

Sejamos francos; a expropriação de terras indígenas no Brasil prendia-se a interesses, ou, melhor dizer, a presumidos interesses dos nossos agricultores; e num país em que a agricultura tem tamanha força, era natural que a opinião pública se manifestasse em favor da expropriação de terras indígenas… O que há pois para admirar em que os nossos homens políticos se curvassem a essa lei da necessidade? O que há para admirar em que nós todos, amigos ou inimigos da expropriação de terras indígenas, nos curvássemos a essa necessidade? Senhores, se isso fosse crime, seria um crime geral do Brasil, mas eu sustento que, quando em uma nação todos os partidos políticos têm sido chamados a exercê-la, e todos eles são concordes em uma conduta, é preciso que essa conduta seja apoiada em razões muito fortes, é impossível que ela seja um crime, e haveria temeridade em chamá-la um erro.

Esse aí é um pedaço de um discurso relativamente velho. Foi proferido em 16 de julho de 1852 (isso mesmo, século XIX) por Eusébio de Queirós. Queirós foi o ministro da justiça que assinou a lei de cessação do tráfico de 1850 (que, diga-se, repetia uma lei de 1831 que, entretanto, não havia “pegado”). Da citação original, substituí “tráfico” por “expropriação de terras indígenas”. Eusébio tentava justificar porque a lei de 1931 não tinha “pegado” e o tráfico continuara até 1850: ele era uma necessidade dos agricultores (leia-se elite latifundiária). A lógica tortuosa do argumento é explorada por Sidney Chalhoub no seu “Visões da Liberdade”, de onde tirei a citação: se todo mundo precisava do tráfico, então ele era legítimo.

Hoje em dia é o mesmo que vemos acontecer com a expropriação de terras indígenas: como ela é uma necessidade para o agrobusiness brasileiro, ela aparece como legítima (para a mídia, para os partidos, para muito da opinião pública). E o fato mais surpreendente para alguns, que o PT, com a Dilma como preposta número 1, abrace a expropriação de terras indígenas, já era previsível para quem vê a politica brasileira com olhos voltados ao passado. Como disse Eusébio de Queirós: se todos os partidos estão de acordo, então tudo bem. O PT apenas incorporou-se ao coro dos favoráveis à expropriação de terras indígenas. Agora é uma “necessidade”.

Mas depois de tantos anos, sabemos que o tráfico era uma abominação, que a escravidão era uma abominação, assim como sabemos já que expropriação de terras indígenas é uma abominação, mas isso infelizmente só ficará evidente num futuro que espero não sejam os 38 anos que separam a lei de 1850 do fim formal da escravidão. Em 1850, escravos lutarem contra a escravidão era um crime. Hoje, índios lutarem a favor da demarcação de terras indígenas está se tornando um crime, com todo o apoio do PT. Olhando para a situação agora me parece que a constituição de 1988 é similar a lei de 1831: muito bacana, mas só um sonho de verão. Por todos os lados, procura-se legitimar a expropriação de terras indígenas, ao contrário do espírito da nossa constituição.

Ataca-se diretamente a FUNAI, ataca-se o conhecimento antropológico, ataca-se os próprios antropólogos e mata-se índios (e estimula-se a matança). Há sangue nas mãos do PT, sangue de oprimidos. Sangue dos mais oprimidos na construção desse país. Foi preciso que um governo de esquerda com uma política econômica de estímulo ao consumo esgotada, cuja a única alternativa de crescimento do PIB ficou na mão do agronegócio (já que o câmbio implode a indústria), tomasse a dianteira em desmontar qualquer resistência à expropriação de terras indígenas: tudo para termos mais 0,5% no PIB ao final do ano.

O centrismo amestrado do PT resultou nessa desumanidade e no sangue indígena nas mãos de todos (pois são todos coniventes, se ainda permanecem nesse partido).

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Acima, foto de Dilma na reunião emergencial para lidar com a questão indígena.

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2 comentários em “Sejamos francos

  1. Na verdade o tráfico negreiro não “era uma abominação” só tornou-se uma abominação desde que convencionamos abominá-lo, e isso foi depois dele terminar. Nós atribuímos valor às práticas econômicas, jurídicas, etc: não o encontramos, nelas porque nelas não está.

    Se fosse mesmo uma necessidade da sociedade atual, as terras da União destinadas ao uso pelos índios (não são, pelo menos constitucionalmente terras DOS índios) eu apoiaria a ideia de que os índios devessem ser desapossados. Mas eu duvido, sinceramente, que ter mais terras, essas ou outras, vá fazer algum bem ao agronegócio brasileiro como um todo. Muito menos salvá-lo.

    Quase toda a nossa pecuária é extensiva (o que equivale a dizer que os bois ali são mera desculpa pra não se perder a terra). Tecnologia para transformar esses pastos em terra arável o país tem, e usaria se agricultura estivesse demandando espaço com tanta urgência. O que demanda espaço é especulação imobiliária. E quem ganha com o avanço sobre as terras da união destinadas a aldeias indígenas são umas poucas famílias fazendeiras.

    Não há chance da “República Federativa do Brasil” e seu povo ganharem com as desapropriações de reservas (nem o pouco que ganharam, com a escravização de índios e negros pela colônia/reino unido/império).

    Então não há interesse público nenhum em se desalojar tribos indígenas hoje. Apenas interesse de uns poucos bem colocados, influentes, articulados, prósperos, particulares. Ou ao menos assim me parece.

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