A longa noite de 17 de junho

Antes de começar, é bom destacar que não tenho nenhuma pretensão de entender agora o que aconteceu ontem. Não tenho e acho que poucos sabem exatamente o que significam os protestos.

Já vi várias explicações e nenhuma delas me convenceu completamente, embora nenhuma estivesse completamente equivocada (com exceção das explicações na mídia, claro). Um protesto contra a precaridade do transporte público, uma fadiga do modelo de desenvolvimento petista, um reação ao conservadorismo cultural desses últimos anos, uma reação ao consumismo radical dos últimos anos, etc, etc.

É tudo isso, com certeza, mas é algo mais que não consigo identificar. Um saco cheio geral. Um protesto abertamente não partidário, mas eivado de posições partidárias. Um coletivo de insatisfações imprecisas, um protesto contra os gastos públicos na copa. É também isso tudo, mas é algo mais, que não sei o que é.

Olhando para uma pesquisa do datafolha (não que eu acredite piamente nela, mas é alguma informação), vemos que a maioria dos revoltosos tem curso superior (77%?) e 53% têm menos de 25 anos. É um protesto predominantemente de classe média, parece. Será que é mesmo?

Essas coisas que afligem o movimento deveriam também despertar a voz de quem não tem curso superior, imagino. Porque eles não estão lá? Um pessimismo constante me faz ver algo que o triunfalismo dos revoltosos talvez deixe fora de foco: uma revolta como essa é muito abertamente contra um tipo de organização da experiência, aquela do consumo como modo de vida (e de política) e é um alvo legítimo, ok. Mas ao mesmo tempo, o modelo em fadiga segundo meu amigo Ruy, produziu uma inclusão de gente que estava fora do mundo do consumo. E parece que essas pessoas não estão interessadas em criticar esse modelo de vida. Eles acabaram de chegar… Não é por menos que a grande medida mais recente do governo Dilma foi dar mais grana para consumo das famílias que compraram as casas do minha casa minha vida: para manter a entrada nesse novo mundo. E o que se precisa reconhecer é que isso funciona. O governo continua com muita aprovação.

Qual o efeito dessas manifestações na jogo sujo da política atual? Difícil saber, mas algo líquido e certo é que a percepção das manifestações será lentamente transformada por uma leitura conservadora dos meios de comunicação (alguém leu o constrangedor artigo do Jabor de hoje no Estadão?). Daqui um tempo possivelmente serão lidas como um protesto contra o governo Dilma. Ou seja, os fdp de sempre tentarão dar um gato nesse sentimento difuso das ruas e enfiá-lo na goela do PT. (aliás, bem feito, quem mandou virar um governo reacionário, atropelando todos os movimentos sociais, matando índio, apostando no consumo como redenção?).  Por outro lado, algumas lideranças serão lançadas ao jogo político formal, provavelmente (alguém lembra de como o Linderberg Farias fez carreira a partir do movimento cara-pintada?).

Mas não acho que se mudará o mecanismo que legitima a pax petista entre os que sustentam o voto nesse modelo em fadiga. Na verdade, a inflação pode corroer muito mais essa sustentação que qualquer outra coisa. E um modelo que pressupõe consumo mas não tem produtividade suficiente para sustentá-lo só pode terminar em inflação, vamos combinar. É por isso que quando a Dilma procura saídas, só acha duas: subsídios ao consumo e apoio ao agronegócio (é isso que permitiu que um eleitor do PT ganhasse de brinde a Kátia Abreu e o Blairo Maggi no colo da Dilma).

Mas se a coisa não descambar, difícil que o movimento de protesto atual implique numa grande transformação. Ou não? O que seria exatamente um descambar? Talvez uma continuidade sem precedentes da revolta force as tarifas para baixo e resulte em transformações urbanas para melhorar a mobilidade, talvez isso resulte num desestimulo à produção de automóveis (talvez não). Talvez o movimento se espalhe pela população mais pobre que, além de comida, passe a querer mais (diversão, balé, saúde, educação). Talvez isso fortaleça alguns políticos e enfraqueça outros. Talvez o Aécio ganhe votos, talvez a Marina, talvez vejamos o Lula de volta.

De qualquer forma, um grande mérito ninguém tira do que aconteceu nos últimos dias: está todo mundo pensando sobre a situação presente e aquela atrofia e marasmo críticos estão sendo desestabilizados. Isso é um grande feito. Além disso, de lambuja, todo mundo agora reconhece que não dá para ter uma polícia de ditadura militar num regime democrático. Há que mudar muito na polícia. Isso só já é algo espetacular, pois pode resultar justamente numa melhoria para quem não estava no protesto (os caras da periferia que sempre tomam as borrachadas da polícia – sobre isso, leia o blog do Sakamoto).

Enfim, para mim, as fichas ainda estão caindo. Há mais para se dizer, mas não tenho certeza. Abaixo, uma grande representação da sensação geral sobre o que está rolando. Mundo Monstrop.s. Nada mais legal que um protesto anti-consumismo-como-única-forma-de-estar-no-mundo.

p.s.2 Engraçado demais ver o Jabor colocando o rabo entre as pernas para tentar sugar algo da revolta em proveito dos reaças.

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Um comentário em “A longa noite de 17 de junho

  1. Igor, desde sempre fui apoiador do PT e dos governantes petistas. No entanto, o governo Dilma não tem o menor pudor de vender os movimentos sociais e as minorias políticas no primeiro balcão que encontrou. Quem era aliado histórico da esquerda, e do PT foi trocado por apoio neopentecostal. Agora, com o silêncio da presidenta frente às manifestações, posso te dizer que meu voto ela não tem mais. Para falar a verdade, quem prometer democracia, livre mercado e preocupação social, ganha meu voto na próxima eleição.

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