O voto nulo e o parque dos avestruzes

Depois de mais de um ano sem postar, senti uma vontade urgente de expressar uma opinião sobre o voto nulo de muitos colegas antropólogos, a partir de um pequeno post no facebook e da discussão que se seguiu.

O meu ponto de vista é simples: não existe voto nulo no segundo turno, mesmo que você anule o voto, vote branco ou não vá votar. Qualquer ação dessas opções é um voto em alguém: em quem está na frente. É uma conta simples, que não acho necessário expor, mas o faço para ninguém dizer que não entende. Tome uma eleição, com as regras do nosso pleito, com um universo de 10 votantes. Para se eleger, é preciso 50% dos votos mais um. Num colégio eleitoral de 10 votos, são necessários 6 votos para eleger alguém. Isso se todos os votos forem válidos. Suponha que o candidato A teve 3 votos, o o B 2 votos, e que 5 pessoas tenham se negado a votar, votado branco ou nulo. Nesse caso, o universo de votos válidos é de 5 votos. Seria preciso 50% mais um voto para se eleger, o que significa que o candidato A se elegeu com 3 votos. Ou seja, os votos nulos, brancos e abstenções significaram, na prática, um voto no candidato A (são os votos nulos, brancos e abstenções que efetivamente elegem o candidato A).

Nesse exemplo, quem anulou o voto, na verdade votou no candidato A. Num segundo turno como o nosso, qualquer ação é um voto num ou noutro candidato, mais especificamente, naquele que está na frente. Assim, quem defende o voto nulo não está em cima do muro, está na prática votando em alguém. Isso não faria diferença ao protestante se ele realmente imagina que tanto faz quem vai ganhar. Isso nos leva ao ponto central: quem defende o voto nulo deve, por coerência acreditar que tanto faz PSDB ou PT no poder. Se você não acredita nisso e pensa em votar nulo, deveria reconsiderar o seu voto, imediatamente.

O que me parece é que os nulificadores de esquerda não querem comparar PT e PSDB: quando falamos que a educação vai ser destroçada com o PSDB, os nulistas vêm com o bordão: isso é política do medo. Terrorismo eleitoral. Ora, please, dizer que o PSDB vai ser péssimo para a educação é uma análise baseada em fatos concretos demais para se ignorar: governo FHC, governo Alckmin, governo Aécio em Minas. É uma análise razoavelmente certeira dizer que a educação pública vai piorar muito. Se os nulistas acham isso mentira deveriam contestar defendendo o Aécio, não acusando essa análise de ser “terrorismo eleitoral”. Só que eles não defendem o Aécio, pois sabem que não dá para defender PSDB no que se refere à educação. Então, aí entramos com a metáfora dos avestruzes com as cabeças enfiadas na terra: tudo para não comparar honestamente PT e PSDB.

E isso num cenário onde o Armínio promete uma inflação de 3%. Ora, sabem os nulistas antropólogos o que isso significa? Acho que sabem, mas não querem ver. Mas ainda assim, explico: significa que os juros vão subir na casa do C* e isso vai aumentar a dívida pública, que o cambio vai se valorizar novamente (influxo de dinheiro especulativo em busca de juros altos), que dívida alta significa menos grana para projetos sociais (e educação pública) e que cambio valorizado vai terminar de desindustrializar o país. Com país sem indústria forte, para onde um governo PSDB vai olhar para gerar divisas? Ora, para o agronegócio e mineração. Ou seja, um governo neoliberal reajusta o Brasil num papel econômico do século XIX: produtor de commodities. Um país com essa posição estrutural num mercado internacional significa, aqui dentro, mais pressão e opressão contra populações indígenas e quilombolas, pois esses serão vistos ainda mais radicalmente como empecilhos ao desenvolvimento. Os nulistas de hoje terão saudade do governo Dilma.

E isso não é para elogiar o governo desastroso do PT nessa área (vejam esse post de 2010 para ver a minha posição). É para mostrar que qualquer comparação ponderada aponta para um governo muito pior do PSDB que o do PT no que tange as populações em estado de vulnerabilidade. Se você vota nulo, pode estar elegendo o Aécio e sendo conivente com esse quadro pior que virá, com certeza (e não com “terrorismo eleitoral”). É simples assim: ou o nulista é um avestruz com a cabeça enfiada na terra e não quer de fato comparar ou acredita mesmo que tanto faz um como o outro. No segundo caso, é preciso dizer que a capacidade de analisar o cenário político só pode ser muito, muito, muito limitada.

Para terminar, reforço: não há de fato voto nulo no segundo turno. Qualquer ação é um voto em alguém. O segundo turno existe para que se vote no menos ruim e eu acho que qualquer análise honesta vai perceber diferenças entre um projeto e outro, diferenças que levariam um eleitor de esquerda a votar no 13. É claro que é legítimo votar do jeito que se quiser. Mas também é legítimo questionar a razoabilidade de votar nulo nesse momento, que é o que esse post pretende fazer.

Antropólogos em campo

Acima, foto de um antropólogo famoso e seus amigos tomando posição pelo voto nulo.

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