Réquiem a um grego

Em tempos de recusa ao arrocho fiscal por parte dos gregos, liderados pelo Syriza (que inveja devem fazer ao PT, não?) escrevo sobre um grego, mas sem relação com as boas notícias vindas da Grécia.

O grego é meu sogro, Dimitrios Ioannis Nikolaou, falecido em 03/07/15.

Em seu “Pensamento Selvagem”, Lévi-Strauss inicia o livro com uma série de trechos do folclore europeu sobre a relação entre filhos/as e madrastas. O próprio nome do livro “pensée salvage” é um trocadilho com essa relação. Em francês é o nome da flor que conhecemos como “amor-perfeito”. As passagens listadas por Lévi-Strauss remetem a uma relação entre a forma da planta e as relações sociológicas estabelecidas no parentesco quando aparece a “madrasta”. Isso tem relação com o argumento do autor sobre a relação entre a percepção do mundo sensível e sua organização a partir de lógicas sociológicas, mas não é o que interessa nesse post.

A flor amor-perfeito ilustra a relação da madrasta e suas filhas com as filhas/os do casamento anterior de seu marido.

Nos trechos, as lendas nos dizem que a madrasta é a pétala de baixo, imponente e que ocupa “um sofá inteiro”. As suas duas filhas estão acima, cada uma em uma cadeira confortável. E as filhas do casamento anterior, pálidas, ocupam ambas uma só cadeira. A natureza oferece, assim, um modelo visual das relações de parentesco instituídas com o segundo casamento do homem, após ter perdido a primeira esposa. As lendas falam do lugar dos filhos do primeiro casamento: uma espécie de relação deslocada pelo movimento do parentesco, que constituiu novas relações (nova esposa e filhos), mas não pode apagar as evidências do parentesco anterior. A roda das relações de parentesco anda, mas nem tudo são, bem, flores. Vemos aqui o que Carsten chamou de “lado sombrio” do parentesco, numa crítica a visão positiva demais de Sahlins (a alusão ao “dark side” da mitologia de star wars é relevante, pois ela trata justamente de relações tensas de parentesco, afinal, “Luke, I’m your father”).

Não precisamos ir longe, e basta lembrar da história de Cinderela, ou de João e Maria para vermos algumas tematizações dessa relação. Dimitrios as viveu de forma drástica: perdeu a mãe ainda quando era criança. Ele e suas duas irmãs menores viram o pai casar-se novamente e ter mais filhos. A relação com a madrasta foi péssima e gerou a emigração dos três irmãos. Ao completar 18 anos, Dimitrios emigrou para o Brasil (no começo da década de 1960); suas irmãs emigrariam para Austrália, alguns anos depois.

Tenho trabalhado sobre a relação entre o parentesco e migração, e o exemplo de Dimitrios é a quintessência desse processo: excluído na recomposição do parentesco familiar, viu-se na situação de migrante. Mas a vida é cheia de ironias. Depois de constituir sua própria família, Dimitrios viu sua esposa sumir no mundo, deixando-o com duas filhas pequenas para criar.

O desafio e o sentido da vida de um imigrante se confundiram: como enfrentar essa situação? Num primeiro momento, Dimitrios buscou apoio das irmãs na Austrália e tentou migrar novamente, agora com as filhas. Passaram cerca de 8 meses por lá, mas ao fim, as meninas queriam voltar ao Brasil. Dimitrios, encarando a situação, resolveu atendê-las e voltou. Retomaram a vida no Brasil, agora com o risco de uma nova volta da roda do parentesco a espreitar.

Mas a opção de Dimitrios reflete a superação do desafio, nos seus próprios termos. Recusou-se a casar novamente e passou o resto da vida dedicado, à sua maneira, a cuidar das filhas. Recusou a roda do novo parentesco, para não impor às filhas a exclusão da qual foi objeto quando criança (essa era a forma como ele encarava a situação). O parentesco, de um jeito ou outro, deu sentido à vida de Dimitrios, recusando a exclusão das filhas e enfrentando o desafio de criar sozinho as filhas.

Ao seu Dimitrios, meu adeus. Vão aqui minhas homenagens à vida de um homem simples, marcada por uma decisão difícil e vital, mas que lhe trouxe uma forma de realização: não impôs às filhas o que lhe foi imposto.

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Dimitrios Ionnis Nikolaou. 1940-1915
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