Uma ficção científica para os conservadores

Há um clima de ódio no ar. Historiadores tentarão entender isso daqui uns anos, a época dos cães raivosos. O tema da corrupção é uma desculpa para o ódio, já que a indignação com a corrupção é amplamente seletiva: que os partidos conservadores sejam tão corruptos quanto o PT não parece ser um problema. Eu arriscaria dizer que esse ódio disfarçado de indignação cívica é um ódio de classe, misturado com o velho e grudento racismo brasileiro. A elite tem pavor do andar de baixo, e quando a galera lá de baixo deu uns passos acima, a indignação arrebentou: empregadas que não sabem seu lugar, serviços caros, negros na universidade, etc. É de mais pra muita gente. Que essa galera do andar de baixo comece a pensar como a elite racista é coisa pra entender com o Gramsci.

Daí as manifestações toscas de volta à ditadura. É o conforto geral do racismo de elite. Mas vamos combinar que pedir a volta da ditadura é uma tolice tão grande que nem dá vontade de pensar sobre isso. Assim, faço um favor aos ultra-reaças: leiam “Tropas Estelares“, de Robert A. Heinlein. É um dos textos mais militaristas que já li, mas não é tosco. É reaça sim, mas não é burro.

As ficções científicas são um grande campo de pensamento sobre o futuro e, portanto, sobre o “hoje”. O futuro é sempre uma referência que só pensamos a partir do que vivemos. Os autores projetam no futuro um mundo diferente. Isso segue várias opções: alguns cenários são apocalípticos (críticas ao modelo de desenvolvimento atual); alguns são mundos sem problemas (críticas aos sistemas políticos); e ainda muitos outros tipos de pós-mundos. Essa ficção de Heinlein, considerado um dos maiores escritores de FC do século XX, é uma mistura dos dois tipos. Houve uma crise, depois superada por um novo e perfeito sistema político.

Não conheço o autor para além desse livro e parece que outras ficções não seguem esse padrão reaça do Tropas Estelares. Mas nesse livro, que conta uma guerra contra alienígenas, o mundo é governado por um sistema que divide cidadãos de residentes legais. Só os cidadãos votam. O detalhe é: só são cidadãos aqueles que passaram pelo exército (um mínimo de dois anos) e conseguiram concluir a formação básica, desenhada para que apenas os “mais fortes” terminem.

É o paraíso dos coxinhas atuais: só ex-milicos votam. É uma ditadura militar constitucional, digamos, pois também só pode ser eleito um ex-militar (militares na ativa não votam). Heinlein consegue tornar em realidade plausível a ideia obtusa de “ditadura constitucional”. E o livro é uma sucessão de defesas do papel civilizatório dos militares, com aulas e aulas de moral (conduzidas por professores militares) sendo transcritas, na história da formação do personagem principal – um soldado, obviamente.

Uma aula, por exemplo, quer provar que “a guerra e a perfeição moral derivam da mesma herança genética”. O militarismo tem a ver com as posições de Heinlein, defensor do uso da força militar bruta (defendia o projeto  do pentágono,”guerra nas estrelas”, com todas as forças). No livro, defende a necessidade absoluta de exterminar todos os alienígenas inimigos (ou eles ou nós), etc.

Herói para coxinhas

Outro autor importante da FC, Orson Scott Card, também é bastante conservador e militarista, mas sua série “O jogo do exterminador” é cheia de ambiguidades, com críticas intensas a aspectos do mundo militar, ao mesmo tempo que expõe a necessidade dele. Um autor complexo (um dos livros dessa saga, Xenocídio, é das melhores FC que já li), que justamente expõe uma crítica profunda à ideia de extermínio, objetivo candidamente desejado por Heinlein. Que é fascista mesmo.

No livro de Heinlein entretanto, apesar do ultra-militarismo, aprendemos muito sobre a vida militar. Heinlein foi oficial da Marinha Americana e traz toda experiência pessoal para o livro. Vemos o valor do esforço físico limite, a ideia de que os fracos devem ser eliminados por treinamentos severos, o desprezo absoluto pelos civis, o campanheirismo, a confiança absoluta nos superiores, etc, etc.

Os nossos coxinhas deveriam sonhar com o futuro de Heinlein, onde só milicos votam, o extermínio da diferença é objetivo final e os demais “residentes legais” têm que ficar quietinhos no seu canto.

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s