Ah, o apocalipse

Ficções científicas são uma ótima saída quando o mundo real está uma droga. E como ele quase sempre está, então as FCs são sempre uma saudável distração. FCs também são ótimas por pensarem milhares de possibilidades futuras e isso nos faz pensar sempre no presente: aquilo pode vir a ser? A partir de agora, para onde a gente vai?

Por acaso li ou assisti a três exemplos de apocalipses futuristas: o livro Um Cântico para Leibowitz, de Walter Miller Jr., o filme novo do Mad Max e uma fc água com açúcar, chamada Silo (Hugh Howey). É engraçado como os futuros envelhecem rápido, não? Os três falam de um apocalipse, provavelmente nuclear (ou algo assim). Têm níveis distintos de profundidade, entretanto. Não percam tempo com o filme, nem com o Silo. O Leibowitz é outra coisa, livro difícil e interessante, sem centro aparente, apenas uma descrição da vida após um grande expurgo da ciência (condenada pela guerra nuclear que criou). Muito interessante.

Mas é um futuro velho, pois não parece que a guerra nuclear prevalecerá. O Mad Max, além de ser um dos piores filmes que já vi na vida, fala de um futuro muito maluco e contraditório: parece que todas as fontes de vida estão se esgotando, mas os caras continuam pirando em andar de carro. Parece que é só o que interessa. É como se o caos sugerido, justamente de ordem ambiental, não fosse suficiente para as pessoas deixarem de andar com o inferno do carro.

Cena do filme Mad Max

Mostra-nos um pouco da nossa fixação atual com automóveis, apesar do mundo estar ruindo e o caos ambiental se aproximando. Mesmo pensando o apocalipse ambiental, não abrimos mão do carro (nem no futuro). Já no Silo, esse livro bacaninha que tem tudo que um best seller precisa ter, a insinuação é que o apocalipse nuclear foi criado para exterminar parte da população do mundo que os gringos simplesmente não queriam mais por perto. É uma triste extrapolação da intolerância atual à diferença. Mas não me parece que os caras iriam morar em Silos e abrir mão da vida a céu aberto. Mais provável seria algo como o filme Elysium, onde o mundo foi para o vinagre e os ricos mudaram-se para paradisíacas estações orbitais.

Mas todos esses futuros estão meio desatualizados, e me vem à cabeça o filme Wall E. O brilhante filme, que assumiu a consequência máxima da lei marxista da concentração do capital: o mundo todo é controlado por uma única empresa e o capital atingiu o máximo do seu próprio nirvana. Está todo acumulado num lugar só. Só que eles sacaram que antes da revolução dos oprimidos, reagindo ao capital concentrador, o mundo acaba em barranco: o caos ambiental não dá tempo à revolução. Sobrevêm antes, de forma a impossibilitar a vida na Terra. E é a própria corporação (ou capital) que vai determinar o futuro dos humanos no espaço e é contra ela (ou contra o fantasma do capital) que os humanos gordinhos precisam lutar para voltar ao planeta.

Essa é uma FC atualizada, com um futuro realmente plausível hoje em dia. O extremo de concentração do Capital aprofunda o abismo entre classe sociais, e o ápice da acumulação produz um mundo dominado formalmente pelo capital, onde os outros agentes políticos parecem inúteis. Vamos combinar, uma gigantesca empresa única mandando em tudo significa um domínio global absoluto: Estados são irrelevantes, tudo o mais é irrelevante. Não é um futuro atual, esse?

O avanço galáctico da direita (ainda que pequenas vitórias da esquerda nos alegrem, como em Portugal) não é um sintoma desse futuro apocalíptico? A raiva como instrumento político não é algo que faz parte do futuro de concentração do capital, intolerante com tudo o mais? Uma mídia cada vez menos informativa e cada vez mais explicitamente golpista não é outro sintoma?

As cenas de apocalipse ambiental acontecendo já, como o desastre causado pela Vale/Sammarco (entre muitos outros) não é o exemplo mais formal da atualidade do futuro de Wall E? Enfim, que outros futuros nos salvem.

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