Zizek, por que não te calas?

Numa entrevista traduzida pela folha (aqui) Zizek nos mostra sua face mais reacionária (aqui o artigo completo). E isso vem justo quando estamos tratando da diferença, do afluxo de refugiados à Europa. O pensamento sobre a diferença é sempre uma forma de identificar o conservadorismo por trás das fachadas. No caso de Zisek, uma fachada revolucionária de esquerda.

Basicamente, ele defende a militarização contra os refugiados (que eles fiquem nos campos de refugiados nas bordas da Europa), que reconheçamos que os muçulmanos não deveriam estar na Europa, pois eles “espancam gays”. O pensamento do cara é tão tortuoso que é quase uma piada: devemos reconhecer que o relativismo é uma doença liberal, devemos agir contra a intrusão da diferença para deter o avanço da extrema direita na Europa.

A piada é que esse argumento é um argumento da extrema direita e o que Zizek está a fazer é justamente operar como ideólogo da extrema direita, mesmo que indiretamente. Ademais, a piada de mal gosto é que ele nos oferece candidamente uma visão do seu modus revolucionário: para evitar o fortalecimento da direita radical na Europa deve-se evitar a chegada dos refugiados. Ou seja, que se expludam esses refugiados, que fiquem longe para não fortalecer os partidos anti-migrantes.

Que o refúgio seja um direito internacional reconhecido pelos países europeus não entra na conta. Que a causa do movimento esteja ligada aos interesses do capitalismo global e suas guerras contra determinados ditadores (e não contra outros) que contrariaram seu interesse num ou noutro momento, entra na conta, mas precisa ser logo descartada. Ele admite a culpa “ocidental” mas não quer assumir responsabilidade pelos refugiados, já que isso aumenta o poder da direita na Europa. É realmente um argumento toscamente circular: Lutamos contra a direita que causa esses males, mas esses males, se mitigados, vão fortalecer a direita, então, em relação a eles nós agimos exatamente como a direita: pedimos o exército para lidar com os refugiados.

Assim temos acesso à revolução de Zizek: uma revolução de brancos europeus para brancos europeus, e que se lixem os condenados pelo capitalismo global que estão fora da Europa. O mesmo pensamento de “fortaleza Europa” que circula o pensamento conservador europeu. Não é um problema pensar como a extrema direita no que se refere à diferença.

Para além disso, a crítica aos muçulmanos como povo, para questionar o liberalismo conservador, é uma estupidez: os muçulmanos batem nos gays, então são maus. Ora, vamos considerar que essencializar milhões com base no comportamento de alguns é tolice. É ignorar que a mesma coisa (bater em gays) acontece pelas mãos de não muçulmanos por todo o mundo, inclusive na sagrada e justa Europa (que também produz violência sem tamanho contra diferenças em geral). São argumentos tão primários que não deveríamos ter que voltar a uma discussão tão conservadora.

E isso num cenário onde o Isis acaba de atacar Paris e qualquer argumento anti-muçulmano fortalece a extrema direita. Na esteira do ataque de ontem a questão dos refugiados vai virar exatamente o que quer Zizek: uma questão militar. E, claro, com a ajuda desse paspalho.

Foto do Zizek
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2 comentários em “Zizek, por que não te calas?

  1. Ele desconhece que a militarização das fronteiras já está em marcha na UE ao menos desde a década de 1990…
    Desconhece a proliferação de centros de detenção para imigrantes, campos de “acolhimento”, centros de identificação e tantos outros que servem para reter, confinar e expulsar imigrantes, refugiados e solicitantes de asilo….sem contar agências como Frontex etc…
    A “solução” que ele propõe é o que já tem sido feito há décadas pelo bloco.
    “Já que a extrema direita irá usar o acolhimento dos refugiados como arma, usemos os argumentos da extrema direita -e as ações- para evitar que ela se fortaleça”.
    Não dava para esperar muito do “filósofo” pop star….

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