O humor do golpe

Há sinais para um otimismo moderado, entre os que lutam contra o golpe. Vou expor aqui as razões, tomando como partida a cobertura da imprensa online. Admitindo como premissa que a mídia é parte ativa do golpe, podemos ver o teor e humor da cobertura como indícios da real situação do golpe (ou seja, leremos para além das notícias, com uma boa dose de especulação controlada).

  1.  É possível dizer que o golpe mudou de fase na mídia, da fase do “golpe já aconteceu” para a fase “o golpe está em negociação no congresso”. Há uma semana, o tom das notícias é que o golpe era uma certeza, bastava-se dar o tempo para o congresso executar a sentença de morte. Não havia dúvidas sobre a maioria necessária para realizar o abate ( dois terços do congresso). Eram favas contadas. Mas agora temos indícios que há mais favas no jogo.
  2. As notícias de ontem e hoje passam a dar destaque à contagem dos votos na Câmara: há maioria pró-golpe? Essa mudança reflete-se no fato da coordenação política do governo ter saído da letargia. Está agora em campo para garantir o um terço salvador. E tem nas mãos dois trunfos: os cargos do PMDB pró-golpe e Lula como articulador. São dois grandes trunfos, pois o governo ainda distribui poder, apesar de tudo. E Lula é um negociador com credibilidade (credibilidade que nenhum outro teve, justamente por Dilma não a ter. Como Lula é maior que Dilma, o que ele promete é factível).
  3. As notícias de hoje, por exemplo, são sobre um possível desembarque do PMDB do Rio. Ora, esse tipo de notícia é uma confissão indireta que ninguém sabe se há maioria ou não pró-golpe. A notícia positiva pró-golpe é que um pedaço do PMDB “sinaliza” um desembarque, o que é muito menos que a certeza de que o PMDB estava todo na canoa golpista. Pode-se concluir que estão todos fazendo contas, o que é um refluxo da fase “o golpe já aconteceu”.
  4. Temer, o golpista maior, cancelou a viagem a Portugal. Essa é a notícia da semana: significa que ele precisa entrar no corpo a corpo para fazer o PMDB desembarcar da canoa legalista. Se o golpe fosse favas contadas, ele estaria fazendo pose de estadista em Portugal, procurando legitimação internacional para o golpe. Se ficou, é porque a coisa está incerta.
  5. Parece que a repercussão negativa internacional está assustando todo mundo. Esperava-se um apoio contundente ao golpe, mas as reações mais ponderadas de meios de comunicação gringos e agentes políticos parece colocar um problema ao golpismo descarado.

Os fatores que permitiram um refluxo no humor do golpe (da certeza à incerteza) são principalmente três:

  1. O freio do STF à armação jurídica para prender Lula. Isso possibilitou que ele articule a política de contenção ao golpe no varejo do congresso. E todos sabem que ele pode sim fazer diferença. O freio também colocou agentes estabanados em alerta, pois podem eles mesmo virar alvo ao invés de estilingue.
  2. As manifestações pró-legalidade, que deram um aviso alto e claro de que há apoio social ao governo (e sobre isso seria possível escrever muita coisa), mesmo que seja o apoio relutante de muitos que foram atropelados pelo governo desastroso de Dilma. O apoio à legalidade é um fator que não estava nas contas dos golpistas.
  3. A volta do governo à ativa na política do varejo, finalmente acreditando que é possível trazer um contingente de cerca de 80 deputados para sua base. Considerando que a base forte de legalistas (PT + PDT + PCdoB) junta algo como quase 100 deputados, não é impossível trazer esses 80 a mais, considerando que há 7 ministérios do PMDB que podem entrar na equação e, possivelmente, mais um ou outro do PT (sim, o PT vai ter que diminuir como resultado de uma montagem segura da “Minoria retranqueira”).

Há mais coisas a se considerar, e que nos permitem ver que o jogo ainda está sendo jogado. E, sendo assim, precisamos estar alertas e atuantes na luta contra o golpe:

  1. Surpreendentemente, a mídia não organizou até agora outra manifestação anti PT. Por que? Seria óbvio manter uma pressão popular contra o governo. Isso nos leva a especular os possíveis motivos: deve haver uma dúvida sobre a capacidade de mobilização; deve haver um medo da repercussão negativa que essas manifestações fascistas levam para o exterior (fazendo que o golpe perca legitimidade internacional); deve haver mesmo um receio do teor fascista das manifestações da elite, fazendo os agentes políticos temer os desdobramentos políticos desse movimento. Temem que os fascistas decidam apoiar um fascista, por exemplo.
  2. Os movimentos contraditórios da lava-jato. A enquadrada que levou Moro teve efeitos enormes. O caso das listas da Odebrecht é o sinal disso. Há várias teorias para o vazamento seguido de sigilo: Nassif acha que é uma afronta ao STF, para testar limites; outros acham que é uma tentativa de intimidar os congressistas e inflamar o golpe. Eu acho que é só uma trapalhada desse bufão: quis se defender da acusação de parcial divulgando uma lista onde todos aparecem como culpados, mas depois viu a merda que fez e recuou. Merda enorme porque o colocou novamente em rota de colisão com o STF e porque os aliados todos começaram a gritar com a divulgação: está perdendo apoio político. E o efeito da lista pode ser o contrário do que quer o otimismo dos comentaristas golpistas, pois pode ser que os congressistas achem que a lava-jato está fora de controle e, nesse cenário, derrubar a presidente apenas traria a PF mais rápido para dentro do congresso. Seria melhor, num outro cálculo, manter Dilma como vidraça até o STF enquadrar definitivamente a operação político-golpista de parte do judiciário.

Há ainda muitos outros fatores em jogo, claro, e a maré pode virar novamente. Mas é preciso saber que o jogo ainda não acabou e, como se diz, à Vicente Matheus, “o jogo só acaba quando termina”. Temos um embate de negociações no congresso: Lula X Temer, mas Lula precisa de um resultado mais modesto para vencer. Perder de dois a zero serve. Não se pode perder de 3. E um dos fatores importantes nessa equação é a mobilização popular legalista, que precisa estar em atividade máxima. Ou seja, cada legalista que sai às ruas faz a diferença na luta contra o golpe.

Pra terminar uma música incrível contra os golpistas.

 

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